Nossa Senhora da Cidade Baixa. Ou Momento Confessional nº2

     E eu que saí em busca de aventura na sexta-feira, acabei ganhando proteção. Sabe, tenho um lado muito particular quando o assunto é religião. Sou, oficialmente, espírita, contudo simpatizo com vários aspectos de outras religiões.
     Gosto muito do Santo Antônio, por exemplo. Não ao ponto de pedir namoradas e tal e coisa, só que, como moro no bairro homônimo, estudei no colégio ao lado da igreja, acabei criando uma ligação afetiva com o religioso em questão.
     Entretanto, não é assim fácil, fácil, pra me convencer a seguir algo, ser devoto. É preciso mais! É preciso provar com o exemplo. E não é que eu vivi um semana passada…
     Depois de muitos anos em algum cofre da Caixa, minha querida mãe finalmente conseguiu resgatar uma correntinha de ouro. Orgulhosa, deu-me de presente. Não sou de usar adereços assim, mas como foi ela que me deu, feliz ainda, aceitei, né?! Mãe é mãe.
     Só que, como disse, era só a correntinha. “Pede um pingente pra tua vó. Não tenho um pra te dar.” Tudo bem. Na sexta, pedi uma pra ela, que se comprometeu a me dar. Beleza! Só esperar, então.
     Eis que saí com uns amigos meus nessa noite. Estávamos na boêmia rua João Alfredo. O Pippo, do nada, olha para baixo e vê um pontinho brilhando. “Olha, um pingente de uma santa”. Uni a fome com a vontade de comer e já o coloquei na correntinha solitária.
     Tá, mas que santa era? Sei lá. “Nossa Senhora da Cidade Baixa”, batizei-a. Se existia ou não, pouco importava. Simpatizei com a tal santa boêmia.
     Juro que nem cogitei pedir nada – como fazem os devotos – além de sua companhia. E ela acompanhou-me pelos escuros 4km que percorri a pé até a minha casa naquela noite. Porto Alegre, há muito, deixou de ser uma cidade segura, mas nada me aconteceu. Começamos bem, nossa relação.
     No dia seguinte, curioso, mostrei o pingente achado pra alguém que deveria conhecer: minha avó. Ela quase se emociona ao reconhecer Nossa Senhora da Conceição. Lembrou-se que o avô dela, quando foi à Guerra do Paraguai, levou uma imagem dessa santa. “E tu achaste por acaso? Ela que te escolheu. Vai te proteger”, afirmou, com sabedoria octogenária.
     Não acredito sempre nos fatos ‘por acaso’ da vida. A santa apareceu do nada e pode significar, simplesmente, nada. Mas, algo me diz que tem alguma coisa por trás. Talvez seja a tal proteção. Boa indicação ela tem. Se, sob seus cuidados, meu tataravô retornou vivo de uma guerra há 140 anos, por que não poderia eu viver as aventuras que tanto quero por aí?

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9 pensamentos sobre “Nossa Senhora da Cidade Baixa. Ou Momento Confessional nº2

  1. Tiago, o acaso dessa vez foi de alguém que perdeu um pingente de ouro com uma imagem impressa. Poderia ser uma letra, uma figurinha, sei lá.
    Difícil é deixar de lado a emoção, quando se está cercado por pessoas tão sensíveis e gentis como sua vovó.
    Como disse uma amiga: se é que existe Deus, tomara que Ele tenha um tempinho para proteger meu filho!
    Abraço.

  2. Ladrão de pingente!
    Que vergonha… Um pessoa ficou sem a sua proteção (sem maldade) e tu fica contando uma historinha pra emociona os outros do teu furto? Que vergonha…que vergonha… Hahahahahahaha….

  3. Talvez a pessoa que tenha perdido o pingente não merecesse a Nossa Senhora da Conceição. Mas ela agora está em boas mãos. Aliás… Bom pescoço…

  4. Pingback: Hay de tener fe | Telha do Tiago

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