Tristão, porque nada é tão ruim que não possa piorar

Leia o texto imaginando-se num quadro da Terça Insana 

Ele entra em cena de óculos fundo de garrafa, calça no umbigo, caminha lento e diz:
– Boa noite.
Poucos na platéia respondem. Ele abaixa a cabeça, mexe nas unhas dos dois indicadores, tímido, e continua:
– Só se for pra vocês. Pra mim, nenhuma noite é boa. Eu tenho insônia nas noites…
– Meu nome é Tristão. Tristão Alves Medina. Não, nunca conheci nenhuma Isolda. Nem nunca vi nenhuma Isolda. Alguém aí conhece alguma Isolda?
(entredentes, ele rosna: Nome desgraçado esse!)
– Eu nasci com astigmatismo. Quem vê de longe, pensa que eu tenho miopia, eu não vejo. Quem vê de perto, pensa que eu tenho hipermetropia, eu também não vejo. Mas na verdade eu tenho os três. E por isso, eu não vejo.
– Mas não é por isso que eu não estou olhando pra vocês. Sim, sou estrábico também. Sou tão vesgo, mas tão vesgo, que quando eu choro a lágrima sai do olho e me molha a nuca.
– Se eu olhar pra vocês, aquela moça lá do fundo, à direita, vai pensar que estou dando em cima dela. E esse velho gordo, aqui da esquerda, vai achar que eu sou veado. Eu fora, velho. De feio na relação já basta eu.
– Menos mal que meus problemas de visão nunca evoluíram. Na verdade nada em mim evolui. E eu acho que essa foi a única sorte que eu tive na vida. O meu câncer, por exemplo, faz 16 anos que tenho e ele nunca evoluiu.
– Ainda assim eu poderia dizer que tive uma vida boa, uma infância boa…
– Mas não tive!
– Eu não tive nada bom, só meus pais.
– Meu pai era um muito bom traficante. Minha mãe uma boa prostituta.
– Até hoje tenho dúvidas pra quem entregar o presente no dia dos pais.
– Não posso dizer que a gente era pobre, pra isso a gente teria que ter economizado muito.
– Casar? Não… Casamento nunca foi um sonho(seca uma lágrima). Não, não… Nunca tive uma namorada. Aliás, deve ser por isso que até hoje eu sou virgem. Mas recém fiz 42 anos, tenho tempo. A expectativa de vida no Brasil tá crescendo. E o viagra está aí.
– Como começou minha depressão? Não sei… acho que foi meio sem motivo…
– Sempre achei esse negócio de depressão uma frescura da minha família. Nunca acreditei que fosse um depressivo.
– Aquela vez da gilete foi um acidente. O muro da sacada, porra meu, era muito baixo.
– Os atropelamentos? Ahhh não, aí não… vocês já viram quantos carros têm pelas ruas? Uéhhh, me distraí, oras… E não me venham com essa de várias vezes. Todos os dias tem carros nas ruas. Acontece!
– Tá, eu sei que a minha pobreza foi um pouco traumática e talvez contribua, mas choro tanto quando vou lá na psicóloga, que até hoje não consegui conversar com ela.
– Eu reconheço que se eu tivesse tido uma mulher, e nem precisava ser uma Isolda (que nome desgraçado!, sussura…), as coisas teriam sido mais fáceis.
– Mas muito cedo eu aprendi que mulher só gosta de homem com pau grande ou com dinheiro! Desde então eu jogo na loteria em todos os concursos. Há 28 anos. Nunca falhei um!
– O dono da loteria é a única pessoa que fica feliz ao me ver. Foi ele quem me deu o único presente de Natal que ganhei na vida. Inesquecível aquele chiclete.
– Tarde agora??? Só se for pra vocês. Pra mim, tanto faz. Eu nunca durmo de noite. Aliás, quase nunca… ontem, depois de 29 anos, eu dormi. A primeira noite em quase 30 anos. E vocês não vão acreditar. Eu não gostei.
– Nas madrugadas eu tinha uma espécie de pesadelo. Mesmo acordado eu tinha o sonho de poder dormir e sonhar. Mas eu não sonhei. Tive um pesadelo.
– Um pesadelo terrível. Sonhei com um bebê (dois, cinco) completamente birolha, suburbano (um, três) e literalmente um filho da puta (zero, sete). Ele cresceu depressivo (cinco, um) tornou-se um alucinado por dinheiro (três, dois) que volta e meia sofria uns acidentes estranhos (dois, oito), parecia um suicida, sei lá…
– Achei aquele pesadelo totalmente sem sentido!
– Pensei muito, imaginei várias coisas, mas não tinha jeito. Nada parecia ter conexão.
– Muito menos aquelas seis dezenas que se repetiam incessante e seqüencialmente durante o sono.
– Foi aí que me veio um pensamento meio fora de contexto, meio nada a ver, e tive a idéia gratuita de jogar aqueles números na loto.
– Teria dado tempo, se eu não tivesse dormido tanto tempo. Perdi o horário de fechamento das apostas, pela primeira vez naqueles anos todos. Mas não dá nada, nunca ganho mesmo…
– Tanto que eu não ia nem conferir… mas acabei conferindo…
– Alguém aí tem uma gilete?

Obs: Texto feito em parceria com o Rodrigão em uma das proveitosas aulas de terça-feira desse semestre na Famecos.

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3 pensamentos sobre “Tristão, porque nada é tão ruim que não possa piorar

  1. po , brodinhu , acho muito foda teu texto , eu faço algumas esqwetes de comedia inclusive tem um video meu no you tube se qweser dar uma olhada , é so botar na busca do you tube , ”xoxana visita arara wild

    meu orkut é mic.

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