O exemplo de Yves

     Poucas cerimônias de promoção de faixas de judô foram tão emocionantes quanto a de 11 de dezembro de 2007, na Sogipa. Não pelo fato de que, sobre o tatame, estivesse o único brasileiro bicampeão mundial do esporte, muito menos pela presença de diferentes gerações, de veteranos a novatos, no dojô, e sim pelo grande astro da noite. Derly? Tiago? Mayra? Não, ele se chama Yves Dupont. O primeiro gaúcho portador de Síndrome de Down a alcançar a graduação máxima no judô: a faixa preta. 
     O caminho foi longo para Yves. Mais do que os 11 anos no tatame. Até o momento em que o bicampeão João Derly se agachasse em sua frente para amarrar a nova graduação na cintura foram muitos golpes. O primeiro deles, no preconceito. O atleta passou um ano apenas assistindo os treinos no dojô. Não queria lutar por se considerar “diferente” dos outros. Foi quando o professor Daniel Pires o convidou a tornar-se judoca e convenceu-o que não existe nenhuma pessoa igual a outra. Portanto, todos são diferentes. 
     Daí para frente aconteceram os aprendizados. Ele foi absorvendo toda a filosofia criada por Jigoro Kano no século XIX no Japão, e passou a aplicar kokas, yukos, waza-aris e ippons nos adversários. Sejam eles “normais” ou não. Sejam eles judocas ou a sociedade preconceituosa. A recompensa veio aos poucos. Medalhas, títulos e, o mais importante de tudo: respeito. Mesmo assim, foi difícil. Mas todo suor derramado, todos os momentos difíceis haveriam de ter sua recompensa. 
     Ela veio em 11 de dezembro de 2007, na cerimônia de promoção de faixas, uma das mais emocionante em 40 anos do judô sogipano. Redes de TV e repórteres de jornais vieram ao dojô do clube. Não para ver João Derly, Tiago Camilo ou Mayra Aguiar. Foram para ver Yves se tornar o primeiro gaúcho e segundo brasileiro a receber a faixa preta. “Temos aqui um verdadeiro campeão da vida”, disse Kiko, coordenador técnico do judô, enquanto lágrimas furtivas surgiam em boa parte das centenas de olhos que acompanhavam o evento.
     Palmas, muitas palmas, espocaram assim que Derly acabou de atar a faixa preta na cintura de Yves. Os dois se abraçaram, cumprimentaram-se e enxugaram o choro para posar para as fotos. Dois campeões juntos. Um servindo de exemplo para o outro. João, pelos títulos; Yves, pela superação. Ambos pelo exemplo.
     Aqui, a reportagem que passou em rede nacional…

Obs: pra quem não sabe, trabalho na Assessoria de Imprensa da Sogipa, um clube aqui de Porto Alegre, onde treinam os campeões mundiais de judô João Derly e Tiago Camilo. Ontem, O Yves, esse menino, de 18 anos, chegou a faixa preta. Podia ser só mais uma promoção de faixa, mas chamou a atenção toda a superação que esse guri teve. De riso fácil, pareceu ser querido por todos. Acompanhei toda cerimônia. Foi bastante emocionante. Muitas pessoas, incluindo gente que nem conhecia toda história, choraram de tão bonito que foi. Eu mesmo, tive que me conter pra manter meu orgulho masculino. Por incrível pareça, não que eu seja lá muito experiente, me emocionei trabalhando, pela primeira vez. Tanto que nem precisava fazer matéria sobre o assunto, mas merecia, né?! Ah, além de ser o primeiro gaúcho e segundo brasileiro, Yves é o faixa preta portador de síndrome de Down mais novo do mundo. E parabéns ao Jefferson Jraige, primeiro professor dele, e ao Moacir Mendes, atual sansei.

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5 pensamentos sobre “O exemplo de Yves

  1. Muito emocionante. Será que um dia essas exceções deixarão de ser motivo para comemoração? Quem sabe um dia todos os diferentes possam ser iguais.
    Parabéns pela matéria.
    Abraço.

  2. Realmente emocionante… E assim como é “ruim” emocionar-se no trabalho jornalístico, é muito bom que tenhas (e que mantenhamos) a capacidade de fazer jornalismo mesmo emocionados.
    Não perca isso e serás mesmo o grande jornalista (sem trocadilhos piadísticos com a tua altura) que estás dando mostra de que será!

    Agora pra ser meio Leonam, tira a segunda vez que aparece a data e coloca um “hoje” ou “ontem”, dá atualidade e evita a repetição. Explica, na primeira vez que aparece, o que é Dojô, e limpa umas outras duas ou três repetições de palavras que fica perfeita a matéria.

    Acho que ficou na medida certa… Ela tem emoção sem ser melodramática, aliás seria impossível e burra se não tivesse emoção (a pauta é muito propícia).

  3. Parabens Tiago, muito boa a matéria…adoraria ter visto essa cena, deve ter sido realmente emocionante. Afinal, não é sempre que coisas assim acontecem no nosso dia-a-dia e, quando acontecem, o jeito é baixar a cabeça e aceitar que a gente desiste muito facil das coisas né. Bjus

  4. Sou a mãe do Yves, e fiquei muito feliz ao me deparar com essas reportagens, pois saber que está valendo a pena investir e acreditar , apezar de estar começando, apenas começando uma grande batalha, já estou colhendo alguma coisa.
    Tenho coragem e isto é o que me faz seguir adiante e muito amor, para lutar e conquistar um espaço para o Yves . Abrindo portas para ele e todos os diferentes, pois esta diferenças deve ser vista com outros olhos.
    Olhos para ver a diferença sem diferença.
    Eu quero dizer que o ser diferente é capaz de alcançar muito mais do que se imagina, pois ele é diferente para ver e fazer o que muitas vezes, nos , ditos normais , não conseguimos, mas é preciso acreditar e entender todo este potencial que existe .

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