A praça como ela é

     A Praça da Alfândega é um dos principais pontos turísticos da Capital gaúcha. Ela está localizada entre a Rua dos Andradas, chamada pelo povo até hoje de Rua da Praia, e a Sete de Setembro. Fica no Centro – que na verdade não é centro! Fica no oeste de Porto Alegre. O local é cercado por prédios históricos, como o da Empresa de Correios e Telégrafos, o Museu de Artes do Rio Grande do Sul e o Santander Cultural. É bastante movimentado em todos os 365 dias de cada ano. Principalmente, por personagens que passam despercebidos da vista apressada dos transeuntes.
     E apesar da depredação causada pelo vandalismo, o lugar pulsa vida e cultura. Ainda mais no período dos meses de outubro e novembro, quando acontece seu maior evento: a Feira do Livro, que, em 2007, completou a 53ª edição – é a maior da América Latina. Todos os anos, milhares de pessoas se espremem nas estreitas vias para passear, pechinchar e até comprar algumas obras. No entanto, é nessa época que os moradores e reais freqüentadores da praça passam de protagonistas a figurantes.
     Nas estações menos badaladas, lá vivem algumas “figurinhas carimbadas” da cidade. Uma delas chama-se Varceli Freitas Filho. Personagem importante, este. Trata-se do último fotógrafo lambe-lambe de Porto Alegre. Em épocas idas, era imprescindível para registrar passeios em família e graceavam em grande quantidade. Mas mesmo agora, quando as fotos se banalizaram em celulares baratos e câmeras cada vez mais modernas, Varceli continua firme com seu aparelho rudimentar do milênio passado. “Fica parada. Sim, isso. Não pode mexer, hein. Só mais um pouquinho… deu! Daqui a 20 minutos tá pronta.”
     Além das fotos, Varceli ganhou outra função na Feira do Livro 2007. Para cada um que olhava interrogativamente para os tapumes de uma obra ao lado, ele explicava: “Tão colocando o livro na mão do Drummond de novo. E vai ter um ato contra o vandalismo quando reinaugurarem”, revela. Na maioria das vezes, a pergunta seguinte é sobre o preço dos retratos e então dizia “duas por dez, três por 12 e quatro por 15”. Caso o cliente não tenha dinheiro, já avisa: “Tudo bem, domingo agora estarei no Brique da Redenção. Dá uma passada lá.”
     E ele não pára. É entre as explicações e retratos demodés que o homem de bigode branco e avental preto tira o sustento da família. A cerca de 15 metros de Varceli, transpassando a fronteira da Feira, estão os hippies. Normalmente vendem seus artesanatos na via central da praça. Mas nesses 20 e poucos dias em função do grande evento, incluindo montagem e desmontagem das bancas, ficam literalmente escanteados entre a fronteira dos livros e a beira dos prédios comerciais.
     Uns são preocupados com a vida: “Pô, brother, tô aqui só pra tirar uma grana. Não leva a mal não, mas essa entrevista fica pra próxima”, desculpou-se para mim uma loira de olhos azuis – assim como sua blusa – sentada no chão. Ela estava calçada com chinelos simples e acompanhada por um cachorro vira-lata, deitado do seu lado, parecendo nem se importar com o movimento. Um amigo dela ria bastante. Vestia calças, óculos Ray Ban (falsificado, provavelmente) e bebendo cerveja. Jogado ao lado de brincos e pulseiras com milhares passando na frente.
     Alheio a eles e ao movimento, Seu Chico olhava para o nada, na espera de que alguém notasse as camisetas, pulseiras, braceletes e anéis expostos. Esta é a 15ª Feira do Livro que acompanha de perto. Já vira muitos autores famosos caminhando sobre os paralelepípedos da Praça da Alfândega, além, claro, dos loucos. “Aqui é tudo pirado.” Para ele, tudo é meio igual nas exposições. Todo ano a mesma coisa, só que cada vez maior. Mas desta vez sente falta dos estrangeiros. Neste ano, vieram poucos, “não recebi nenhum dólar até agora, nem vi nenhum europeu. Deve ser por causa desse negócio dos avião(sic).” 
     Pof!!! Um cego que caminhava pela Andradas atropela a banca e faz tremer sua estrutura. Quase derruba as camisetas enfeitadas com alguma letra de música do Bob Marley. Seu Chico assiste a cena sem muita comoção e suspira.
     Assim como qualquer pessoa, ele gosta de ganhar um dinheiro. Inteligente e precavido, já faz planos para a Copa de 2014, no Brasil. Penduradas discretamente atrás das camisas com o rosto de John Lennon, estão as mantas e suéteres nas cores verde e amarela. Seu Chico planeja fazer mais, pensava em roupas leves, até descobrir que as partidas em Porto Alegre serão realizadas sob rigoroso inverno gaúcho. Sentado na cadeira maltrapilha, ele só espera que, até lá, os problemas aéreos tupiniquins tenham se acabado. “Daí os europeus vêm.” 
     Assim que projetou isso, um bom prenúncio chegou. Atendia pelo nome de Jason Perez, da Califórnia. Falando alguma língua do tipo “portuglês”, analisava os produtos expostos. O norte-americano quis levar uma camiseta com o rosto de Che Guevara, mas pedia uma mais small. Tentando se fazer entender, quase encostava o indicador no dedão, o gesto eternizado pelo Professor Raymundo. Jason pagou com uma nota de cinco reais e outra de dez dólares, fato que deixou à mostra os dentes do vendedor pelo resto do dia.
     A pechincha rolava solta nos estandes, o lambe-lambe revelava suas fotos e Seu Chico ainda permanecia sentado na mesma cadeira maltrapilha, enquanto a gari se esforçava para varrer a sujeira acumulada pelos visitantes o mais rápido possível. Era uma tentativa quase inútil de deixar o local limpo para que todos possam sujar outra vez. Ela suava bastante enquanto torcia para que a Feira acabe logo. Só assim, sua rotina – e a praça – volta à normalidade. 
     Mas enquanto isso não acontece… “É naquele corredor ali, senhora.” O homem que passou essa instrução para uma perdida é o segurança João Antônio Dutra. Vestido de terno e gravata, parecia nem sentir o calor de mais de 30° da ensolarada tarde porto-alegrense. “Tem coisas piores. Meu turno vai até às sete da manhã.” Ele mesmo admite que sua função não tem muita utilidade. “Os homi(sic) fizeram uma limpa antes da Feira.”
     De fala pacífica e com um bóton, com o texto “Todos pela educação”, preso quase no colarinho, João gosta de falar. Idéias claras, inteligentes e sempre tementes a Deus. Teoriza acerca de seus pensamentos, contudo nem sempre consegue completar. “Porto Alegre tá muito saturada. Só quero ver como vai ser na Copa, isso aqui vai explodir. Sem contar as favelas, né?! O exército tinha que dar um jeito nos morros… O quê? A banca 77? A senhora pergunta ali no Informações que eles respondem. De nada.”
     Na Feira do Livro, ainda não comprou nada. Se os organizadores cumprirem a sua promessa e pagarem os seguranças no penúltimo dia da exposição, João poderá adquirir as obras que planeja. No momento, o máximo que pode fazer é olhar o movimento, “Porto Alegre tem muita mulher bonita, impressionante.”
     O diagnóstico do segurança é idêntico ao do engraxate Cláudio Bandeira. Aliás, é a única benesse que a Feira do Livro o proporciona. “Eu gosto da Feira porque passa bastante moça, mas o movimento aqui é o mesmo de sempre”, revela com a experiência de quem está há 12 anos na Praça. O ar consternado causado pela escassa féria se confirma quando nega o suco oferecido por um vendedor que passava. “Hoje não. Tá ruim”, lamenta. O caixeiro balança a cabeça e sai resmungando: “Pra ti tá sempre ruim.”
     Pouca gente reparou no sorriso do Seu Chico após receber seus primeiros dólares em muito tempo. Muito menos viu a face triste do engraxate Cláudio, ou gastou alguns minutos perguntando como funciona aquela caixa esquisita na qual o Varceli tira fotos novas que já surgem com jeito de velhas. Assim, paradoxalmente, a Feira do Livro, mesmo atraindo milhares de pessoas para suas bancas, deixa de lado os seus moradores tradicionais, tocando para escanteio personagens que fazem o dia-a-dia da Praça da Alfândega.

PS: Reportagem feita para a disciplina Jornalismo e Literatura

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4 pensamentos sobre “A praça como ela é

  1. Ainda bem que li o “PS” por isso a explicação pra um texto enorme… A Praça dos camelos e dos livros… Interessante… Abraços.

  2. Oi Tiago, mais uma vez afirmo…
    TU É O MELHOR JORNALISTA QUE EU AINDA VOU CONHECER!

  3. Gente é o que há. Tem gente que acha que é só uma feira de livros, nem repara nos que fazem do movimento popular algo tão gostoso de se ver. Observando é que se consegue escrever sobre como estavam os olhos das pessoas, a cor do céu. Sem isso o texto fica tão sem sal. Gostei bastante do seu texto! 🙂

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