No canto do bar, ela ouve sozinha uma canção sobre paixão. O indisfarçável sorriso cúmplice denúncia que conhece de cor tais versos.
Elegantemente trajada com um vestido negro como o luto, ela hoje já deixa à mostra um ombro, valoriza uma curva a mais. As dores, enfim, sempre passam com o tempo.
Agora esperançosa, ela aguarda ansiosamente um novo tom, uma música de amor. Quer conhecer outros versos e quiçá viver novas estrofes.
Muito mais que um estilo musical, uma tradição ou um mero cartão postal. O tango é representa algo bem maior em qualquer um dos lados do Rio da Prata. É, em muitos casos, um estilo de vida – especialmente para argentinos dispostos a faturar em cima de turistas.
Na noite de 19 de fevereiro, a prefeitura de Buenos Aires organizou um show de Tango em pleno Obelisco, no coração da “Times Square da América Latina”. Nada menos que 12 mil pessoas compareceram. De todos os tipos: crianças em colos e carrinhos, velhos alojados em cadeiras de praia ou em pé, turistas fotografando e gravando para a posteridade, e vendedores com empanadas fresquinhas à disposição. Todos hipnotizados – a ponto de fazer um “shh” a quem falasse mais alto.
No palco – uma estrutura de 20 metros de altura – 70 artistas apresentaram a história do tango, utilizando 300 peças de roupa. Mais que um mero estilo musical, o tango melancolicamente destilou a sua paixão diante de olhares vidrados e muitas vezes emocionados. E isso é lindo.
Além de viver, Gardel pode render alguns trocados
Gardel vive
Maior ídolo, ícone do gênero é Carlos Gardel. O famoso cantor da primeira metade do século passado morreu em um acidente de avião. Mas nunca esteve ausente para os fãs de Tango. Sem muito esforço, se vê alguma imagem dele em algum estabelecimento bonaerense – dele, de Maradona e de Evita.
Exemplo desse fanatismo se apresenta na Feira de San Telmo. Munido com um violão e um radinho, o músico se apresentava em uma tarde qualquer pedindo pesos de turistas com uma fatiota levemente maltrapilha e sobre uma caixa metálica onde estava colada o cartaz com a mensagem eterna: “Gardel Vive”. Ídolos não morrem jamais, afinal.
Onipresente
Feira de San Telmo
Falando nisso, uma das visitas interessantes de Buenos Aires é a tradicional feira de San Telmo, realizada todos os domingos. Se for visitá-la, caro(a) leitor, separe um punhado de pesos, tempo, disposição e, se for o caso, paciência. Porque é grande e tem coisas para serem vistas. E algumas compradas.
Numa espécie de antiquário gigante, os cacarecos, souvenires e afins são expostos desde quase a Casa Rosada até a Plaza Dorego, no coração de San Telmo. Em números, 12 quarteirões ou 1,3 quilômetro.
Reflexos da Feira
Pode soar meio machista este comentário, mas acredito que não há homem com paciência de passar uma tarde inteira ao lado de uma mulher lá. Claro, considerando ela uma mulher normal que confira tintim por tintim os objetos à venda. Se for o caso, amigo, pare num dos cafés no meio do caminho ou em um bar por aquelas bandas. Opções não faltam.
Eterno viajante, sem sequer um porto seguro nem destino certo. Mesmo cansado de caminhar, segue. Busca por algo que não sabe bem o que é, mas que terá certeza quando encontrar.
Melancolicamente feliz, continua seu caminho. Talvez seja errante, quiçá aventureiro. Vive. Entre o novo e o velho, se perde no presente. Confunde-se no agora, teimosamente incerto.
Está num labirinto. Vai, volta; sobe, desce; à direita, à esquerda. Tudo termina sempre no mesmo lugar. No entanto, prossegue. Porque tudo termina. Sempre.
Basta apenas achar o ponto certo.
Então, depois de tantas idas e vindas, parece que finalmente chegamos à reta final. Há um horizonte desconhecido bem próximo de nós. Ainda que nós já tenhamos superado inúmeras batalhas, parece que cada vez se aproxima mais, deixando todos os outros problemas irrelevantes nesse momento.
Mas já que não podemos fugir do inevitável, quero fazer de tudo para esquecer esta despedida. Vou me esforçar para te ver hoje e agora, sem pensar no amanhã. Não há razão nenhuma para esvaziar a casa.
Prometo, também, que de agora em diante relevarei qualquer deslize teu comigo e compreenderei perfeitamente todas as histórias de um mundo paralelo o qual não consigo enxergar.
E, juro, essas lembranças não serão mais fortes do que as dos momentos de conselhos ou dos cafunés das tardes infantis. Prometo: tu serás uma querida nostalgia em mim. Agora, amanhã e sempre.
Sentiu quando começou. Conhecia exatamente aquela sensação e não gostava nada. Como das outras vezes, chegou mansamente, manifestando-se devagar. Porém, e era sempre questão de pouco tempo: dominou-a e venceu. O resultado, idêntico ao de outras vezes: a fuga.
Tinha que acontecer de novo justo agora?, questionou-se, triste. Procurou defeitos para encontrar nele. Não encontrou. Ele não era a personificação do homem perfeito, longe disso. Daqueles que dava suas bolas foras de vez em quando, e que volta e meia esquecia-se de fazer a barba – o que ela detestava. No entanto, tudo era superável, estava convicta.
Não compreendia o porquê daquilo de novo. Mas aconteceu. E ela fugiu.
Como no passado, deixou compromissos supérfluos ganharem importâncias maiores, adiou encontros e cinemas. De próxima, fez-se ausente. Reviu todo o enredo que já passara mais de uma vez. Tristemente percebeu: de prioridade, virou opção. Consentiu.
Mas dessa vez doeu menos, percebeu. Não teve tons dramáticos. Só um quê melancólico. De quem sabe o final de todos os filmes, ainda que a história comece diferente. Tudo que tinha sido tão bom acabou desperdiçado sem maiores justificativas. Até mesmo porque não coube explicação alguma. Simplesmente não deu certo.
Quiçá, finalmente acostumou-se com seu destino. A desilusão.
É engraçado como a vida – bem, pelo menos a minha – é cíclica. Dou voltas e voltas e mais voltas, mas ainda assim certos lugares, e às vezes pessoas, jamais se permitem ser abandonados. Estão sempre ali, ou por perto, ainda que momentaneamente ausentes.
Escrevo isso porque estou de mudança. Vou (voltar a) morar no prédio em que vivi nos meus primeiros meses e anos de vida. E hoje, caminhando pela Redenção – que fica quase em frente –, casualmente passei pela mesma praça onde quase 24 anos antes meus pais levavam o então filho único para tirar fotografias.
É estranho. Reconheci sem reconhecer. Vi-me criança novamente por entre os brinquedos. Ainda que muita coisa esteja diferente, há algo da minha infância por ali. Há um pouco de mim escondido por entre balanços e escorregadores coloridos.
Toda essa mudança – de certa forma – me traz de volta a partes das minhas origens, cujas quais nem sei se lembro, embora tenha certeza que estão guardadas. Há uma nostalgia por entre o verde da Redenção e do meu apartamento. Mas é uma nostalgia que, outra vez, se transformará em cotidiano.
…e, depois de escrever, me lembrei dessa música. Acho que tem a ver:
Poeta, escritor, diplomata, boêmio, crítico de cinema, dramaturgo, criador da bossa nova, criador dos afrosambas, casado nove vezes. Tão plural como o seu nome é o seu legado. Vinicius de Moraes foi tudo isso e sua obra continua viva hoje, passados 30 anos de sua morte, data completada nesta sexta-feira, 9 de julho.
Volto mais tarde e completo, juro!
Ok, ok, voltei BEM mais tarde do que o anteriormente planejado e – admito – nem sei mais o que escrever. Resta-me, apenas, publicar os meus versos preferidos – mais até que os sonetos – entre a sua larga obra, de “Samba da Bênção“:
Fazer samba não é contar piada
Quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
Sair do Brasil e ir para um país de regime fechado como a Coreia do Norte é mergulhar em uma realidade totalmente diferente. Ao contrário da democracia brasileira, os norte-coreanos vivem sob a batuta comunista de Kim Jong Il.
Para chegar a Pyongyang, arcando com as próprias despesas, a delegação do Atlético de Sorocaba precisou sair de Pequim e, da capital chinesa, embarcar no único voo internacional que vai até a Coreia do Norte.
“Tivemos que ir à China, esperar o visto. Quando chegou, (o visto) era de apenas quatro dias. Embarcamos na manhã seguinte em um avião russo da metade do século passado”, relembra o ex-vice-presidente do clube paulista, Waldir Cipriani. “Nosso técnico na época não quis nem provar a comida oferecida. Passou o tempo inteiro com os olhos fechados.”
E, na viagem, não apenas o transporte foi uma dificuldade. “Quando chegamos, verificaram se todos estavam ‘dentro dos critérios’”, relata Cipriani, sobre o fato que deixou todos os jogadores bem apreensivos. Ele também revela que as bagagens da delegação foram detalhadamente conferidas.
Câmeras fotográficas e celulares foram artigos proibidos. Internet, telefone era algo inacessível mesmo no hotel, nem para comunicar a família que a viagem transcorreu bem. “Além disso, nossos passaportes não que ficaram retidos, mas bem guardados por um funcionário do governo.”
O treinador do Atlético de Sorocaba na época, o ex-jogador Edu Marangan, recorda – em entrevista à Rede Record – a principal sensação que teve na Coreia do Norte: “Você chega no aeroporto e dá de cara com o Exército”, revela. “Parece que você é vigiado durante 36 horas num dia.”
Um dos muitos sonhos (não realizados) que já tive era tocar numa banda famosa. O mais perto disso que cheguei aconteceu em 2002, quando tive uma. Porém, longe de ser famosa. Daquele grupo de adolescentes que pagavam R$ 10,00 por uma hora de estúdio apertado com técnico maconheiro, apenas um seguiu no caminho da música. Felizmente, meu melhor amigo do grupo.
Hoje a sua atual banda, a Área Restrita, está fazendo um relativo sucesso em nível estadual e, aos poucos, nacional. Legal! Não discuto o som que fazem, mas antes de tudo, torço para que o Mendez torne-se um rockstar para daqui a alguns anos eu possa olhar e dizer: “Tá vendo aquele ali colocando milhares pra pular? Cansou de carregar o contrabaixo que eu tocava”.
Enfim, piadinhas à parte, mas não é da Área Restrita e nem do Mendez que eu quero escrever… Apenas aproveitei o gancho para falar do caminho que eles percorreram até chegar ao seu relativo sucesso em nível estadual e, aos poucos, nacional: a internet.
Para se ter noção, caro(a) leitor, passam das 3h30 da manhã e estou na frente do computador, porque acabei de voltar do show do Móveis Coloniais de Acaju. Eles, assim como O Teatro Mágico – e mais outras centenas –, fazem parte de uma nova e interessante geração de bandas.
Essas, que ao invés de levar seu trabalho às rádios, o disponibilizou para download. Aí, algum amigo ouviu e gostou, então indicou para um conhecido, que por sua vez mandou o link para um outro lá, que enviou o arquivo por MSN a outro contato e assim seguiu. Quando vê, até eu que não tinha nada a ver comprei ingresso e vi o show.
Não vou nem perder tempo discutindo o poder de transmissão da web, só ressaltar o quanto pode dar certo. Certo? Mas o que seria esse certo? Retorno financeiro ou fãs ensandecidos a milhares de quilômetros de casa (e do computador do qual o arquivo foi colocado para download)?
O questionamento me ocorreu enquanto os centenas de fãs do Móveis subiam e desciam pulando na minha frente a cada nova música executada minutos antes de eu escrever esse texto. Praticamente a mesma cena – quase uma coreografia – que assisti meses atrás no show d’O Teatro Mágico. Fosse eu esperar por uma rádio porto-alegrense tocá-los, não os conheceria.
As duas apresentações foram daquelas que a gente só consegue descrever perfeitamente usando alguns palavrões somados a pontos de exclamações. Algo assim: “Puta que pariu!!! Que show do ca-ra-lho!!!!”.
E, aposto, que esse foi o mesmo pensamento dos fã-clubes paulistas e paranaenses da Área Restrita, a banda do Mendez, que é meu vizinho e já disponibilizou músicas para download a poucos metros da minha casa e, a partir daí, a coisa foi indo, indo de tal forma que até o Faustão já conheceu eles.
Ok! Fantástico ter fãs – e shows lotados – em lugares diferentes que se toca. No entanto, não os vejo (pelo menos o Mendez) como músicos ricos e famosos. E sabemos que dinheiro e fama são, de maneira geral, medidores de sucesso do pessoal que vive da música.
E aí?
Com isso, adoraria um músico pra me responder agora: o que é melhor: fãs fiéis em diversos lugares proporcionado pela propagação da internet ou dinheiro oriundo de festivais e promoções de rádios do circuito comercial?
Além disso, tenho uma segunda pergunta disfarçada na primeira. Tu – músico – o que preferes: a música amplamente difundida na internet, sem quase nenhum retorno financeiro – pelo menos de imediato – ou ela em algum CD protegida por direito autoral e, assim, mais “rentável” ao bolso – porém nem tão conhecida?
Pra não dizerem que furtei minha opinião, sou amplamente a favor da propagação musical e do download livre. Coincidentemente, a mesma opinião do pessoal d’O Teatro Mágico e do Móveis. “Baixem que é de graça, Pirateiem à vontade” são frases corriqueiras nas apresentações deles.
Sim! De certa forma é injusto com quem pega no pesado, logo os músicos. Contudo, acredito eu, seja esse o novo caminho. Não existe mais música “protegida” e inacessível. Mais cedo ou mais tarde ela será jogada na rede pelo maior fã da banda, porque ele quer que seus ídolos sejam cada vez mais conhecidos.
O fã, antes de dar dinheiro, quer dar visibilidade a sua banda favorita e vê na internet a ferramenta mais perfeita para tal.
Último aparte (Ufa!)
O Teatro Mágico e Móveis Coloniais do Acaju, especialmente o primeiro, não são grupos os quais se possa definir o som com um único estilo, rock, MPB, samba etc. São uma mescla de gêneros – tal qual a internet é? – que me deixa particularmente satisfeito. Agradam muitos públicos, como um dia já foram os populares de ontem.
Ela mente pra mim. E ainda é de uma forma tão cínica, tão escandalosa, tão feminina, que tinge um ‘trouxa’ garrafal na minha testa. Em neon: brilhante e fosforescente. Trouxa, homem.
Porém, a mentira que sai de dentro daquela boca, cujos lábios parecem me hipnotizar sempre ao se moverem, é tão sincera que me obrigo a acreditar. Bobagem seria não confiar nela.
Ela me ilude, me tem e se diverte. Some sem deixar qualquer vestígio, não dá boa noite, muito menos liga de volta. E antes que comece a ouvir minha queixa, sorri. Mostra seus dentes e desarma.
Vira o jogo. E mente!
Conta que sentiu saudades, que estava louca pra me ver, que pensou em mim e que até ia me escrever, que quase me ligou. Quase! Mentira, mentirosa. Eu sei. Eu sei, mas qual seria a alternativa senão acreditar?
Se não a tenho, tenho a sua história e sua mentira. Minha ilusão.