Bom dia

Café ainda quentinho sobre a mesa de trabalho, leitura sendo atualizada. Plantas já alocadas na janela em busca de uma nesga de sol, a um metro da cama arrumada. Tudo isso cedo, em manhã de outono. Tudo sem grandes bocejos. Após tantos anos seguidos como um notívago convicto, aos poucos, vou fazendo as pazes com a manhã.

Podia ser poético, mas acho que é a idade mesmo. Bom dia!

Acabem com dezembro. Ou resmungos de um capricorniano de dezembro

Esta sociedade hipermoderna-acelerada me espanta cada vez mais. Hoje se aceleram tanto as coisas que o ano está prestes a ter 11 meses. Sim, transformaram o mês de dezembro em uma burocrata contagem regressiva para o ano-novo – até o especial do Roberto Carlos foi reapresentação!

Ok, talvez tenha exagerado. Dezembro também se resume à última rodada do Brasileirão e à troca de presentes no Natal. Natal, que antes era em 25 de dezembro, tem começado mais cedo (ainda). Lá por fins de outubro, um que outro Papai Noel já dá as caras pelas ruas ou shoppings, iniciando aquela aflição de comprar todos os presentes para todos os parentes.

E entre uma vitrina de loja e outra, dezembro inexiste. Mal que mal começa e surgem os mesmos suspiros de “nossa, o ano passou voando”. Entra-se na internet e as notícias rareiam-se, sendo substituídas por incansáveis retrospectivas. Tudo isso ao som de Simone – que nos lembra que esquecemos de comprar o presente do amigo secreto aquele.

A pressa e o anseio da chegada do novo ano é tanta, que tenho a leve desconfiança que ainda vão acabar com o mês de dezembro. Trarão o Natal para uma semana depois da última rodada do Brasileirão e, em seguida, vão entrar em recesso os que têm essa sorte e iniciar a contagem regressiva para o réveillon. Para depois, claro, contar os dias que faltam para o carnaval. E assim a vida seguirá. Em ritmo de futuro atrasado.

Só as carecas especiais ganham beijos

   Não se beija uma careca impunimente. Nunca. Há de se ter carinho para cometer tal ato. É preciso amor – e, em alguns casos ficar na ponta do pé – para levar os lábios até o topo da testa.
   Quem escreve isso é quem muito já beijou uma careca. Um grande e especial aeroporto de mosquito, cercado de cabelos enbranquecidos ao longo de 89 anos e meio de uma longa vida.
   Uma careca simpática, que guardava uma mente curiosa, cuja trajetória começou lá no interior das Minas Gerais. Que de lá saiu e quase foi à Europa em 1945, mas que por sorte do destino atracou num Porto Alegre.
   A careca pertenceu a um mineiro que se esqueceu de falar uai, embora sempre perguntasse como andava o Belo Horizonte da família fã de martelinho de cachaça e pão de queijo. E que nunca deixou perder a simplicidade daquela terra.
   Um mineiro que foi meu avô. Que por um pequeno lapso do tempo e de um outro coração foi sempre meu único avô. Um cara legal, que partiu de mansinho para reencontrar sua felicidade há pouco mais de um mês.
   E que deixou saudades.

Para seguir vivendo antes que o mundo acabe

   E o fim do mundo que iria terminar dois dias trás não aconteceu. Inclusive, já é segunda-feira – ou terça, no mínimo, pra quem ler este post e estiver no Japão. Tudo parece estar rotineiramente normal depois desse certo frisson da semana passada. No Twitter, o que era #apocalipselive virou #fimdomundofail. E todos acham graça, afinal a vida continuou.
   Confesso que esse assunto, no meu âmago, assusta um tanto – embora não demonstre e até passe incredulidade para os que conversam comigo (papo furado para não transparecer sinais de medo). Admito, deixando um pouco a falsa coragem de lado, que acharia extremamente desagradável estar por aqui e ter que ver, ao vivo, o mundo acabar.
   Se não me falha a memória, já sobrevivi a uns dois fins de mundo. O primeiro seria agosto de 1999, acho. O segundo – clássico – na virada para o ano 2000. Foi igual ao desse 21 de maio, só não tinha redes sociais. Rolou o boato, que cresceu e gerou aquela expectativa. Tal qual hoje, a vida seguiu. Que bom!
   Avaliando um pouco mais, encontrei outras coincidências. Sempre quis viver e para justificar isso mentalizava o que teria de fazer antes de dizer me autorizar a dizer: “Sim, agora eu posso morrer”. A desculpa para as duas primeiras foi a mesma de que outros colegas meus de aula. Óbvia para um adolescente. Eu não podia morrer virgem. Passar por essa vida sem comer ninguém seria lamentável.
   Neste ano, não foi esse o pensamento, claro. A análise aprofundou-se mais. Olhei para trás e vi o quanto conquistei e acabei sentindo um tanto de orgulho. Entre altos e baixos, me formei, fiz gente feliz, viajei, conquistei um espaço para chamar de meu, uns empregos legais e até pós-graduando na área que gosto sou hoje, aos 25 anos de idade. (Para constar: a virgindade já faz coisa de um passado remoto.)
   Mas não pude deixar de imaginar novamente o que eu ainda preciso fazer. E, por mais coisas boas que tenha colocado na bagagem, há outras infinidades que pretendo realizar antes do inevitável ato de desencarnar. Por mais que a haja bonança, a gente sempre quer melhorá-la, concluí.
   Felicidade, em qualquer grau que seja, é viciante. Quaisquer ameaças de que ela acabe assusta.
   Concomitantemente, o friozinho na barriga que ocorre em todas as despedidas me acompanhou nos últimos dias da semana passada. E se realmente fosse o fim? Porém, esse pensamento perdeu força facilmente na rotina diária de jornalista.
   Entre as centenas de e-mails que se candidatam a virar notícia e ser publicada, boa parte delas tem a morte como pretexto. Como aconteceu na quinta, na sexta, no sábado e vai seguir no domingo, na segunda etc. Não pude evitar de pensar, no dia 21, assim que li algum e-mail desses. “Ih, o mundo acabou antes para esse aí”.
   O que se passa, nesta sociedade tão conectada, tão informada por leitores que avisam sites que noticiam via internet, por onde são lidos por outros leitores, que têm celulares online, e ligam para rádios, que passam adiante o que vai ser informado na TV e sair no jornal do outro dia, que será levado até os fundos do cafundó, através de cinco linhas impressas em meio a anúncios publicitários? O que passa é que tragédias diárias viraram corriqueiras e, dependendo, poucos dão bola para elas.
   O mundo termina diariamente para um monte de gente e nem todos notam, assim como nem vários outros sequer querem notar. Pensando bem, ele nem começou para um considerável número de pessoas tão iguais a mim e a ti, caro(a) leitor. Ou dá para chamar de vida acordar na miséria, sem perspectivas ou, pior, sem motivo para levantar e sentir frio, medo, fome ou tudo isso junto? Não.
   Junto a toda essa reflexão, lembrei que uma vez – pouco antes de um dos fins de mundo que acabei por sobreviver – vi em algum meio de comunicação de que na virada do ano 999 para o ano 1000, também houve esse ultimato. Tudo ia pelos ares, mas teria tido comemoração, porque a vida, à época, não era boa e seria melhor se tudo tivesse fim mesmo – o que me faz concluir que temos pessoas um milênio atrasada entre nós e achamos normal. Como se sabe, a Terra continuou a rodar.
   Passado esse outro apocalipse frustrado, no próximo ano teremos outro. E eu certamente ficarei apreensivo enquanto digo que não acredito que a vida seguirá e tal e coisa. Assim como também vou tentar me convencer de que preciso de mim vivo uns aninhos a mais. Em meio a tantos mundos conectados – conectados ou não – tenho que fazer o meu seguir em frente. E acredito que não deveria ser apenas eu.

Minha história com Julieta Venegas

   Lembro que foi numa manhã ensolarada que a conheci. Voltava, recordo, da aula de inglês e ela surgiu no meu carro. Veio por deliciosas ondas radiofônicas. Nunca tinha ouvido a sua voz, que me encantou de primeira. Julieta Venegas.
   Naquela ocasião, por falta de papel, catei uma caneta e escrevi o refrão “Yo te quiero con limón y sal, yo te quierio tal y como estás, no hace falta cambiarte nada” na palma da mão esquerda.
   O estribilho de “Limón y Sal” acabou sendo uma senha jogada no Google para eu saber mais sobre esta cantora mexicana, que toca em Porto Alegre em 11 e 12 de maio.
   Faz três semanas e ela ligou para a minha casa (história disponível apenas para mesas de bar). Conversamos e saiu uma matéria, publicada no site um tempo atrás e republicada no Arte & Agenda do CP nesta quarta. Clica aqui e confere.

Minha letra virou punk!

   Homeopaticamente foi se afastando do cotidiano. Mas pouco se notou sua ausência. Logo ela, tão paparicada em anos passados. Tempos em que era sua obrigação ser bonita ou, no mínimo, caprichada. Legível.
   Minha letra. Fabricada pela minha mão direita há mais de 20 anos. Hoje soa tão largada, quase obsoleta. Substituída diariamente por Times, Tahomas, Trebuchets outras fontes artificiais, tanto com quanto sem serifa.
   Antes pública, atualmente é quase exclusiva. Raramente dá as caras ao mundo, escanteada cumprindo um destino que pode parecer cruel se lembrar que outrora fora trabalhada e quase desenhada entre as linhas paralelas dos cadernos de caligrafia.
   Agora, praticamente só aparece apressada e rebelde em papéis alheios, em geral durante entrevistas, quando é pouco notada. Assimétrica, por vezes se faz um garrancho desafiador à própria compreensão criptográfica. Minha letra virou punk graças ao teclado do computador.
   Quase deixada de lado por causa do Word e do Bloco de Notas (virtual), tem dias que é abandonada por completo. Nem um mero “a”, que dirá uma palavra. Mesmo a mão direita, no passado companheira, agora parece estranhar um lápis ou uma caneta. Onde se digita nisso?
   Resignada com seu destino, suspira ao ver cartas antigas em papéis já amarelados, mas com a caligrafia impecável. Nunca será nem perto disso. Apenas contenta-se: toda e qualquer assinatura precisa dela. Ali vive seu refúgio, sua glória, os poucos minutos de fama que ainda restam. Pelo menos enquanto a tecnologia da biometria não pegar de vez.

No fim, deu certo. Ou momento confessional n° 10

   Eu tinha 13 anos e meio. Mal havia secado as lágrimas pela morte da minha avó materna quando olhei para o lado: a paterna já estava com 79 e, por certo, não ficaria muito mais tempo na minha companhia.
   Lembro-me que a morte da vó Dorva foi um baque. Foda. A primeira vez que percebi a finitude das coisas – até das pessoas as quais a gente ama. Foi nesse momento, enfim, que comecei a dar valor à vida. A não querer desperdiçá-la.
   Eu tinha ainda a minha outra vó. E ela já estava velhinha. “Ela vai partir mais cedo ou mais tarde, te prepara”, ouvi, diversas vezes. Recusei e revoltei-me com esse conselho, que achei pra lá de grosseiro. Não passaria o resto do tempo resignado esperando o funeral dela, afinal.
   Bem ao contrário, enchi-a de mimos. Passeamos no shopping, almoçamos fora, viajamos à praia, conversamos, nos curtimos. Nunca sai de Porto Alegre sem vê-la antes. Sem dar um beijo de despedida, ao menos.
   Os anos foram passando e as doenças começaram. Chegaram e comprometeram a saúde dela. Obrigaram-na a diversas internações hospitalares, horas intermináveis de sessões quimioterápicas. Nesse período, foram vários os “adeus” que dei. “Te prepara…”
   A luta dela, até pelo medo que tinha, contra a morte foi impressionante. Comovente. Assim como seus últimos dias, quando já cansada, tentava mais uma recuperação sobre outra maca de hospital. Foi triste vê-la daquele jeito.
   Era o fim, todos sabíamos, mesmo que um tanto relutantes em aceitar. Ainda que ela tenha apresentado uma relativa recuperação (forte como sempre), sua voz e seus movimentos foram rareando na derradeira semana. Fraquinha, tinha conseguido enfim nos preparar para sua ida.
   É claro que houve choro, dor e momentos difíceis – amenizados pela ajuda de grandes amigos – na hora em que ela desencarnou. Mas, em compensação, nada de arrependimento. Ao menos para mim. Porque a última frase que eu disse para a minha vó, ainda que ela nem tenha conseguido responder sonoramente foi: “Tchau, vó. Eu te amo”.
   E enquanto publico essas linhas, passados nove dias do óbito dela, reflito: não consigo acreditar que ela se foi. Eu a deixei tão viva em memórias, fotos e afetos que a ficha ainda não caiu – e desconfio que nem cairá.
   Concluo então: eu estava preparado. Acreditei ter rechaçado um conselho de 11 anos antes, mas que ajudou a deixar esse momento menos dolorido, porque, no fim, deu certo. Tudo valeu a pena.

Antes da partida

   Então, depois de tantas idas e vindas, parece que finalmente chegamos à reta final. Há um horizonte desconhecido bem próximo de nós. Ainda que nós já tenhamos superado inúmeras batalhas, parece que cada vez se aproxima mais, deixando todos os outros problemas irrelevantes nesse momento.
   Mas já que não podemos fugir do inevitável, quero fazer de tudo para esquecer esta despedida. Vou me esforçar para te ver hoje e agora, sem pensar no amanhã. Não há razão nenhuma para esvaziar a casa.
   Prometo, também, que de agora em diante relevarei qualquer deslize teu comigo e compreenderei perfeitamente todas as histórias de um mundo paralelo o qual não consigo enxergar.
   E, juro, essas lembranças não serão mais fortes do que as dos momentos de conselhos ou dos cafunés das tardes infantis. Prometo: tu serás uma querida nostalgia em mim. Agora, amanhã e sempre.

Das voltas do mundo. Ou momento confessional nº 9

   É engraçado como a vida – bem, pelo menos a minha – é cíclica. Dou voltas e voltas e mais voltas, mas ainda assim certos lugares, e às vezes pessoas, jamais se permitem ser abandonados. Estão sempre ali, ou por perto, ainda que momentaneamente ausentes.
   Escrevo isso porque estou de mudança. Vou (voltar a) morar no prédio em que vivi nos meus primeiros meses e anos de vida. E hoje, caminhando pela Redenção – que fica quase em frente –, casualmente passei pela mesma praça onde quase 24 anos antes meus pais levavam o então filho único para tirar fotografias.
   É estranho. Reconheci sem reconhecer. Vi-me criança novamente por entre os brinquedos. Ainda que muita coisa esteja diferente, há algo da minha infância por ali. Há um pouco de mim escondido por entre balanços e escorregadores coloridos.
   Toda essa mudança – de certa forma – me traz de volta a partes das minhas origens, cujas quais nem sei se lembro, embora tenha certeza que estão guardadas. Há uma nostalgia por entre o verde da Redenção e do meu apartamento. Mas é uma nostalgia que, outra vez, se transformará em cotidiano.

…e, depois de escrever, me lembrei dessa música. Acho que tem a ver: