Causos de bastidor

Na tarde que começara chuvosa, mas que já havia se ensolarado no Centro de Porto Alegre, jornalistas de variados veículos e meios de comunicação aglomeravam-se próximo a uma grade, montada de forma um tanto quanto improvisada, no cais do porto – um dos lugares mais bonitos e escondidos da capital gaúcha. Em forma de U, repórteres ignoravam o calor que já se fazia presente na esperança de ficar próximo ao púlpito transparente, onde a excelentíssima senhora presidente da República poderia falar logo a seguir.

Com o atraso na agenda presidencial, justo naquela tarde em que os graus Celsius iniciavam uma escalada rumo aos 30, talvez um ou outro integrante da imprensa já tivesse começado a esboçar alguma irrelevante impaciência no local – que de nada adiantaria, afinal, o xingamento estouraria em quem? Na presidente quase aniversariante é que não seria.

Entre um e outro pedido de repórter televisivo preocupado com a posição de seus microfones no púlpito, surgiu Seu Medeiros. Acatando ordens de alguma superiora, ele e seus cabelos grisalhos mais para brancos lá iam ajeitar o tal do púlpito. Mais para trás, mais para o lado. “Não posso perder esse emprego”, justificou ele, com um irônico sorriso gentil e um sotaque de algum lugar distante do Sul do Brasil.

Acostumado a atrasos no Executivo, aos poucos, Seu Medeiros foi alertando um que outro jornalista – alguns certamente com nem metade da sua idade: “Não quer que eu desligue a bateria, pra ligar quando ela chegar?”. Enquanto isso, algum colega seu na assessoria de imprensa do Planalto reiterava a cada dez minutos: “Pessoal, não garantimos que ela vá falar, hein. Talvez ela passe reto, depois não nos cobrem”. “Que nada. Montei tudo, ela vai falar”, respondia Seu Medeiros, baixinho.

Como passatempo, ele, aos poucos foi revelando sua vida. Apesar de temer “perder o emprego”, contou que sua carteira de trabalho foi assinada em Brasília há nada menos que 26 anos. Nesta linha do tempo, viu Figueiredo, Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula e, agora, convive com Dilma.

Histórias brotaram logo a seguir: “O Lula gostava de falar”, comentou – como se alguém ali não soubesse. O ex-presidente, aliás, foi responsável pelo maior dia da sua existência: “Teve uma vez que uma das pernas do púlpito quebrou, e tava cheio de microfones. Aí eu lá fui segurar. Rapaz, foram os 12 minutos mais longos da minha vida”.

Acostumado a coletivas, deu a dica para os repórteres presentes: “Não pode começar com uma pergunta dura. Uma vez lá na Paraíba, o Lula se aproximava para a coletiva e um repórter já largou: ‘E o deputado acusado de oposição, você vai puni-lo?’. O Lula deu meia volta e saiu sem falar com ninguém. Depois o repórter teve que se acertar com seus colegas”, recordou. “Então, começa com uma pergunta fácil.”

Em meio a conversa, a comitiva republicana chegou ao cais. Cliques de máquinas fotográficas se dispararam aos montes. Dilma faz que confere retroescavadeiras ao lado de aliados gaúchos. Dirigindo-se ao armazém, onde centenas de outros engravatados a esperavam, ela olhou para os jornalistas e disse: “Gente, eu falo cinco minutinhos com vocês, mas depois, tá?”. Frustração.

Em meio ao desânimo geral à sua frente, Seu Medeiros apenas respirou fundo, sem desfazer o sorriso, e passou a devolver microfones a repórteres apressados que correriam sem se despedir até o evento ao lado. Não era a primeira vez que aquilo acontecia. E nem a última.

Zen dinheiro não tem budismo

   Dia desses caminhava distraidamente na Praça da Alfândega. Um dos hippies que sempre estão por lá me abordou. Com um portuñol bem mais ou menos explicou suas roupas (um pouco mais) exóticas que o normal: Budista. E estava em missão para difundir sua religião.
   Dei trela.
   Português vai, espanhol vem, e aí ele me revela que poderia adquirir muito conhecimento e evoluir – espiritualmente falando – lendo alguns dos livros que ele carregava. Ao ouvir o primeiro “não tenho dinheiro”, não se abalou. “Mas é poquito, dá-me uma contribuicíon apenas.” Ok, venceu. Sinceramente simpatizo com budistas.
   Porém, na carteira, não havia nada além de cartões. Fui para a segunda opção. Ao que me surge no bolso uma única e solitária moeda de R$ 1. “É o que tenho”, resignei-me. Os segundos seguintes, imagino eu, foram de um constrangimento para o riponga budista. Ele havia me passado um resumo da cultura anti-materialista por alguns minutos. E agora teria de negar essa transmissão de conhecimento, pois 100 centavos era pouco.
   Antes da angústia para ele inventar uma maneira de me negar, eu mesmo disse que era melhor não comprar. Assim ele fazia um negócio melhor dali a pouco. Sugestão aceita na hora. Dei dois tapinhas no braço, virei as costas e me fui Andradas afora.
   Num mundo capitalista, o altruísmo, ainda que bem intencionado, precisou ficar para depois.

*Ó, que fique bem claro que esse episódio aconteceu com budistas. Mas ocorre aos montes com outros pregadores também. Nada contra os seguidores de Buda, ok?

Troféus do dia seguinte

   Quisera por tanto tempo aquela cena que preferia nem dormir para apenas admirá-la. Em meio ao breu da madrugada, o momento era só seu, enquanto mirava, deixando os pensamentos livres. Mesmo no profundo sono como estava, ela não conseguiria sonhar mais que ele. Não àquela hora.
   No dia seguinte, exibia no rosto o cansaço na forma de dois troféus tatuados sob cada olho. Aos desavisados que perguntavam o que havia, se estava tudo bem diante do aspecto exausto abria um leve sorriso e informava: “Felicidade gera olheiras pela manhã”.
   E quem ousaria discordar?

De bom tom

   Há pouco me ocorreu a lembrança. E tentei recordar de alguma recente, mas não veio nada à cabeça. Será, então – e graças a algum bom gosto inconsciente coletivo –, que as raves estão desaparecendo?
   Lembro que volta e meia recebia no trânsito algum flyer, que geralmente eram muito bem elaborados e coloridos, convidando para curtir os embalos da música eletrônica até, literalmente, o sol raiar – e, em muitos casos, horas além disso. Praticamente uma louvação ao tãti-tãti.
   Uma única vez cedi. Natal de 2005 e me dispus a ir numa rave. Levado por amigos “mais experientes”, chegamos “meio cedo”. Eram 4h da madrugada. Juro que os primeiros 20 minutos foram legais, porque a batida realmente é estimulante.
   Porém faltava algo. Instrumentos, voz, sei lá, talvez um pouco de humanidade àquelas músicas tão remixadas. As horas seguintes mais pareceram um disco arranhado, com tantos sons repetitivos, em que só a velocidade se alterava.
   Assim que amanheceu o dia 26 de dezembro de 2005 antecipei a resolução de ano-novo: nunca mais ir numa rave. Decisão essa que cumpro com orgulho até hoje. Também porque, anos mais, um amigo ensinou-me a frase definitiva: “O volume é inversamente proporcional à qualidade da música”. Nesse embalo – e ainda cantarolando o post anterior – recomendo-lhe, caro(a) leitor, o mala abaixo:

   Mas talvez tudo isso possa ser mera desatenção. O mercado de raves pode continuar pujante na minha volta e eu nem perceber. Se for assim, acho abstrai. De qualquer forma agraço. Obrigado Tom, Chico, Vinicius, João, Bob, Jorges, Tim, etc etc.
ps – sempre lembrando que gosto é gosto e cada um tem o seu =)

Na sua

   Irresponsavelmente, refaço a sua imagem. E volto a olhar para você com outros olhos. Com os olhos de antes. Esqueço a dor, a tristeza e a incompreensão. Deixo para lá o que passou e convido. Vamos em frente?
   Sem pensar em mim, viro-me a ti, novamente perfeita. Fez-me lembrar do que, na verdade, nunca esqueci e, devido a um descuido, permitimos adormecer. Brincadeiras infantis que nunca mais se repetirão.
   E como num passe de mágica, você surge, outra vez imaculada, bem como conheci e gostei. Bem como me afundei. Mas tudo o que passou, simplesmente passou e agora volto a admirar o seu sorriso, rir das mesmas coisas. Adormeço a mágoa e, enfim, deixo-me levar. Outra vez. Na sua.

Aquilo

   Sentiu quando começou. Conhecia exatamente aquela sensação e não gostava nada. Como das outras vezes, chegou mansamente, manifestando-se devagar. Porém, e era sempre questão de pouco tempo: dominou-a e venceu. O resultado, idêntico ao de outras vezes: a fuga.
   Tinha que acontecer de novo justo agora?, questionou-se, triste. Procurou defeitos para encontrar nele. Não encontrou. Ele não era a personificação do homem perfeito, longe disso. Daqueles que dava suas bolas foras de vez em quando, e que volta e meia esquecia-se de fazer a barba – o que ela detestava. No entanto, tudo era superável, estava convicta.
   Não compreendia o porquê daquilo de novo. Mas aconteceu. E ela fugiu.
   Como no passado, deixou compromissos supérfluos ganharem importâncias maiores, adiou encontros e cinemas. De próxima, fez-se ausente. Reviu todo o enredo que já passara mais de uma vez. Tristemente percebeu: de prioridade, virou opção. Consentiu.
   Mas dessa vez doeu menos, percebeu. Não teve tons dramáticos. Só um quê melancólico. De quem sabe o final de todos os filmes, ainda que a história comece diferente. Tudo que tinha sido tão bom acabou desperdiçado sem maiores justificativas. Até mesmo porque não coube explicação alguma. Simplesmente não deu certo.
   Quiçá, finalmente acostumou-se com seu destino. A desilusão.

Trilha sonora:


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Faz 30 anos, mas ele é eterno

   Poeta, escritor, diplomata, boêmio, crítico de cinema, dramaturgo, criador da bossa nova, criador dos afrosambas, casado nove vezes. Tão plural como o seu nome é o seu legado. Vinicius de Moraes foi tudo isso e sua obra continua viva hoje, passados 30 anos de sua morte, data completada nesta sexta-feira, 9 de julho.

Volto mais tarde e completo, juro!

   Ok, ok, voltei BEM mais tarde do que o anteriormente planejado e – admito – nem sei mais o que escrever. Resta-me, apenas, publicar os meus versos preferidos – mais até que os sonetos – entre a sua larga obra, de “Samba da Bênção“:

Fazer samba não é contar piada
Quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Xeque pré-datado

   Ela o quer, só que não mostra. Ele a deseja, mas se segura. Quem admitir primeiro perde, embora no fim os dois vençam. E o joguinho continua. Ininterrupto. O desafio da conquista é permanente. Cada palavra é meticulosamente encaixada em toda frase. Nesse xadrez, o erro tem que ser zero.
   Ele não quer decepcioná-la. Ela quer se valorizar. Enquanto das bocas saem mentiras inócuas, o corpo entrega verdades pueris. O sorriso escapa, os olhares se cruzam. As mãos – sempre elas – acabam por se encontrar. Tocam-se, acariciam-se e voltam às trincheiras logo que são percebidas. Bendito seja o hiato da trégua.
   Notam-se: o cabelo é arrumado toda hora. Ela joga ao vento o perfume das ocasiões especiais. Ele mira o horizonte para parecer mais sério. Vendem a imagem de que não são quaisquer. Gostam-se. Ela quer dizer sim e fala não. Ele ouve o não e entende o sim. E continuam, porque ninguém cede. Ninguém fracassará.
   E, em meio ao embate, seguem achando deliciosamente difícil o caminho desse xeque mate, que mais cedo ou mais tarde acontecerá. Calculam, passo por passo, para descobrir: como, enfim, os dois (se) ganham?

Partida sem chegada

   Encontraram-se. Era um qualquer terminal aeroportuário recheado de cheiro de despedidas. Extasiados, sentaram-se. Os minutos, nas viagens, costumam ser longos. Ficaram frente a frente, no mais puro e descuidado acaso que as poltronas livres ofereciam naquele exato momento.
   Miraram-se. Horas e horas de viagem requeriam, afinal, um colírio para quaisquer olhares. Entre folheadas de um jornal local, o olho verde dela teimava em reconhecer o castanho dele. Gostaram. A esmo, o destino poderia ser o mesmo.
   Desistindo da manchete desinteressante da cidade qualquer, o homem já elaborava a aproximação; tentando não se iludir, a mulher preferia a espreita. Incentivava a ambição, mas não a alimentava. Deixava, simplesmente, estar.
   A voz robótica de todo aeroporto, então, soou. Chamou o voo. Os dois levantaram-se como distraídos que precisavam ter atenção. Deu tempo de ouvir o inglês: flight one-nine-eight-three, now boarding.
   Conferiram seus bilhetes. Olharam-se. Ele, então, sentou-se: despediram-se com um sorriso amarelo. Ela virou-se e pensou adeus. Ele vendo-a distanciar-se falou pra si: Até nunca mais.

Só teve um problema

   Ela era apaixonada por ele, mas ninguém sabia. Ou melhor: ela era completamente apaixonada por ele e – quiçá – somente as amigas mais próximas desconfiassem, em virtude de um ou outro comentário mais saliente feito em dias esparsos.
   Ele era só dela, em segredo.
   Seus pensamentos e sonhos sobre os dois foram sempre coloridos e com finais felizes. Isso porque ele, afinal, era diferente – peça raríssima entre os colegas do sexo masculino. Companheiro, alegre ao mesmo tempo que educado e… Homem, desses com agá maiúsculo, conforme relato de testemunhas.
   Uma perfeição platônica.
   Queria com ele – e só com ele – uma vida feliz. Planejava viver um amor em refrão. E, assim, cantarolar, sorrir, dançar e provar que o mundo pode ser belo. Quase como um conto de fadas moderno, ambientado numa paisagem urbana e meridional.
   Daria tudo certo, sempre. Daria… o problema foi que a história trocou de tempo verbal certa feita. O futuro, que era do presente, transformou-se em do pretérito quando ele surgiu – feliz – de mãos com uma qualquer.
   Doeu como a (verdadeira) traição.
   Cachorro, sem vergonha, canalha! Como teve coragem de arruinar uma história que – há meses – estava prestes a começar?, questionava-se em silêncio.
   Desolada, então, viveu infeliz mudamente, sempre escondida atrás de um sorriso amarelado. Porque, no fundo, ela ainda era apaixonada por ele, mas ninguém nunca soube. Nem ele.