Por uma nova melodia

No canto do bar, ela ouve sozinha uma canção sobre paixão. O indisfarçável sorriso cúmplice denúncia que conhece de cor tais versos.

Elegantemente trajada com um vestido negro como o luto, ela hoje já deixa à mostra um ombro, valoriza uma curva a mais. As dores, enfim, sempre passam com o tempo.

Agora esperançosa, ela aguarda ansiosamente um novo tom, uma música de amor. Quer conhecer outros versos e quiçá viver novas estrofes.

Troféus do dia seguinte

   Quisera por tanto tempo aquela cena que preferia nem dormir para apenas admirá-la. Em meio ao breu da madrugada, o momento era só seu, enquanto mirava, deixando os pensamentos livres. Mesmo no profundo sono como estava, ela não conseguiria sonhar mais que ele. Não àquela hora.
   No dia seguinte, exibia no rosto o cansaço na forma de dois troféus tatuados sob cada olho. Aos desavisados que perguntavam o que havia, se estava tudo bem diante do aspecto exausto abria um leve sorriso e informava: “Felicidade gera olheiras pela manhã”.
   E quem ousaria discordar?

Rápidas argentinas, parte 8

Sombra de um preconceito
   Pelo que se viu na sexta-feira, a salsa tem ganhado um pouco mais de espaço em relação ao (chato) reggaetown – estilo que faz sucesso entre os latinos. Pois bem, teve uma “festa” no hostel nessa noite. Dentre as participantes, tinha uma brasileira, digamos, um pouco mais exaltada na sua performance. Duas cruzadas de pernas com seu par foram o suficiente para um australiano vir me perguntar – em um español ruim: “Todas as brasileiras dançam assim?”. Coube a mim, então, salvar a honra das minhas compatriotas. “Algumas dançam bem pior, mas é minoria. Essa não é parâmetro…”

A volta dos que já foram (há muito tempo)
   Quem tem mais ou menos os mesmos 25 anos de idade que eu deve ter os dinossauros como parte da tenra infância. Jurassic Park, Chocolate surpresa, miniaturas que brilham no escuro, coleções de fascículos semanais nas bancas de revistas. Tudo isso é muito década de 90 para mim. Ia e voltava. Mas só agora Buenos Aires vive sua época paleontóloga e tem na sua programação cultural exposição sobre os dinos e miniaturas à venda nas bancas de esquina. Confesso que me senti um velho.

Bons – e talvez poluídos – ares
   Por aqui, andar de metrô é muito prático, de ônibus – às vezes –, engraçado, mas o legal mesmo é caminhar pela cidade. E passo por passo se constatam algumas coisas: as belas – e por vezes – centenárias vistas, o calçamento bem irregular em diversos pontos e a poluição emitida principalmente dos coletivos. Para tentar combater isso, o governo municipal espalhou pela cidade uma campanha ambiental por uma Buenos Aires (ainda) mais verde – tem bastante árvore pela capital argentina. Vamos ver se pega.

Nota mental
   Há diversos e variados cafés espalhados em tudo o que é bairro. Alguns experimentam nas combinações. Por isso, um conselho: o Carlito Gardel, do Club do Café, em San Telmo, embebeda qualquer fraco com na mistura com rum e chantilly. ¡Fuerte! Nos mais acostumados ao etanol, proporciona, no mínimo, a famosa tonturinha. Experiência própria.

Pontos de vista, parte 2

   Já havia passado algumas dezenas de minutos com os dois naquele canto e ele nada. Apesar de todo o musical barulho em volta – e, ok, certa quantidade de álcool capaz de atrapalhar o raciocínio – ele ainda não tinha entendido o que ela lhe falava.
   É que era tão óbvio, mas tão óbvio, que a mensagem dela não saía pela boca. Tudo o que queria dizer, passava pela cor de mel do seu olhar. Só ele não percebia. Coitado.

Pontos de vista, parte 1

   De mau gosto, adorava brincar, dizendo que ela ocupava muito espaço na cama. Entre um gole excessivo de cerveja e outros, revelava que ela quase o fazia cair toda noite. “É muito espaçosa. A cama é grande, mas mal dá para nós dois.”
   Um dia, ela cansou e foi-se embora. Dormiu em outro local, sem causar incômodo. Depressivo, o ex-brincalhão pôs a cama para venda. Iria se desfazer do leito outrora tão espaçoso por um único e simples motivo: ficou muito vazia.

Quatro centímetros

   Tinha uns quatro centímetros. Ou nem isso. Quem sabe um pouco mais. Não importa. Acho que tinha quatro centímetros. Esse era o tamanho do vão que a folga entre a blusa e o busto dela permitiu ao Universo naquele exato momento. Quatro meros centímetros que provocavam a imaginação sem revelar nada mais que a já desejada tez morena.
   Hipnotizante. Um espacinho de nada capaz de parar o mundo por um segundo, de desviar todo o olhar. Imã à concentração de qualquer bom homem, mesmo que tenha sido estreito, muito estreito. Um vão desafiador, até. Ou frustrante, para os pessimistas.
   Certo é que quem dali tirar a revelação sem dúvida acordará no paraíso.

*Longe de ser uma releitura, mas o tema se assemelha com a desse texto, cujo blog é ótimo. Recomendo!

Na sua

   Irresponsavelmente, refaço a sua imagem. E volto a olhar para você com outros olhos. Com os olhos de antes. Esqueço a dor, a tristeza e a incompreensão. Deixo para lá o que passou e convido. Vamos em frente?
   Sem pensar em mim, viro-me a ti, novamente perfeita. Fez-me lembrar do que, na verdade, nunca esqueci e, devido a um descuido, permitimos adormecer. Brincadeiras infantis que nunca mais se repetirão.
   E como num passe de mágica, você surge, outra vez imaculada, bem como conheci e gostei. Bem como me afundei. Mas tudo o que passou, simplesmente passou e agora volto a admirar o seu sorriso, rir das mesmas coisas. Adormeço a mágoa e, enfim, deixo-me levar. Outra vez. Na sua.

Aquilo

   Sentiu quando começou. Conhecia exatamente aquela sensação e não gostava nada. Como das outras vezes, chegou mansamente, manifestando-se devagar. Porém, e era sempre questão de pouco tempo: dominou-a e venceu. O resultado, idêntico ao de outras vezes: a fuga.
   Tinha que acontecer de novo justo agora?, questionou-se, triste. Procurou defeitos para encontrar nele. Não encontrou. Ele não era a personificação do homem perfeito, longe disso. Daqueles que dava suas bolas foras de vez em quando, e que volta e meia esquecia-se de fazer a barba – o que ela detestava. No entanto, tudo era superável, estava convicta.
   Não compreendia o porquê daquilo de novo. Mas aconteceu. E ela fugiu.
   Como no passado, deixou compromissos supérfluos ganharem importâncias maiores, adiou encontros e cinemas. De próxima, fez-se ausente. Reviu todo o enredo que já passara mais de uma vez. Tristemente percebeu: de prioridade, virou opção. Consentiu.
   Mas dessa vez doeu menos, percebeu. Não teve tons dramáticos. Só um quê melancólico. De quem sabe o final de todos os filmes, ainda que a história comece diferente. Tudo que tinha sido tão bom acabou desperdiçado sem maiores justificativas. Até mesmo porque não coube explicação alguma. Simplesmente não deu certo.
   Quiçá, finalmente acostumou-se com seu destino. A desilusão.

Trilha sonora:


Bookmark and Share

Parêntese

   Sabiam perfeitamente como deveriam proceder, tal qual sempre agiram. Mas, aquela vez, fizeram exatamente o contrário. Romperam barreiras naquele momento, quando o mundo deixou de importar por alguns instantes.
   Naquele momento, o certo foi agir errado. Transformar uma boa companhia numa lembrança especial requer a espontaneidade na hora certa, no instante seguinte ao qual as palavras ficam mudas.
   A mão dele titubeou, mas não quis soltar a dela, que deixou-se levar. Permitiram-se, enfim. Abriram um parêntese na rotina diária. Sabiam que a vida não precisa ser um cotidiano. Ela permite brechas.


Bookmark and Share

A lição do homem das tesouras

   Fidelidade masculina não se exige, se conquista. É assim e ponto, nem adianta discutir ou tentar outro modo. Um homem nunca será fiel simplesmente porque outrem quer. Será, sim, a quem cativar tal merecimento.
   Ele só será fiel a quem lhe ganhe de verdade, seja o coração, seja a confiança. Para tê-la, é necessário ter a humildade de reconhecer a concorrência espalhada pelo mundo. E, consciente disso, reunir a confiança suficiente para tornar-se insubstituível.
   Não é fácil, mas é bem possível. Certo é que é um erro brigar querendo a exclusividade. Se não fizer por merecer, não tem jogo. Pode até conseguir no início, porém mais cedo ou mais tarde a coisa desanda… E não adianta vir com cobranças depois.
   Fidelidade masculina, às vezes, é um assunto simples demais para mulheres compreenderem. Por vezes, tentando alcançá-la, extrapolam. Ao invés de comportarem-se como mulheres, viram fiscais rabugentas. “Amor, onde você está. Seu amigo, aquele, está junto? Que horas você chega, vai demorar muito?”
   Boa parte delas complica o que é tão fácil. Algo que qualquer (bom) barbeiro sabe como ninguém. Sim, os barbeiros de mãos calejadas de tesouras. Mestres nessa arte, sabem a medida certa entre a conversa sobre a última rodada do futebol e o silêncio compreensivo das manhãs de segunda-feira. Nada de cobranças ou problemas. Pelo contrário, muitas vezes ainda apontam uma solução.
   E, detalhe importante: eles nunca ligam enraivecidos se, por acaso, souberem que o corte de cabelo do mês ocorreu em outro lugar e sequer cogitam a possibilidade de provocar ciúme enquanto passa a tesoura por outra cabeça. Nada disso.
   Há barbeiros que conseguem fazer um homem atravessar a cidade para encontrá-los. Sim, o caminho da fidelidade masculina pode ser ridiculamente simples.