Das coisas que ficam para trás

Foi meio que sem querer que entrei na rua Dona Augusta numa tarde de fevereiro e me deparei com aquele clarão. Uma luminosidade estrondosa que eu não havia reparado na minha vida inteira. Algo estava diferente. E, de fato faltava um integrante do cenário. Ou melhor, ele ainda estava sendo retirado. Uma estrutura fincada no bairro Menino Deus havia mais de 80 anos, o Estádio dos Eucaliptos.

Para quem não sabe, os Eucaliptos foi a casa do Inter entre 1931 e 1969. Sediou dois jogos da Copa do Mundo de 1950. Para quem não sabe, meus avós moraram por quase toda a sua vida na rua Dona Augusta, defronte a um dos portões do estádio, até morrerem, em 2010 e 2011.

Desativado há mais de quatro décadas, o Eucaliptos passou por diversas fases nesse interim. Chegou a ser até um autódromo durante um tempo. Fazia uns dez anos sediava quatro quadras de futebol sete. Antes, em 1999, teve um suspiro de vida, ao ter seu campo principal reformado, recebendo até um jogo amistoso do time principal do Inter.

Ao contrário de toda a mídia que a novela da assinatura do contrato de remodelação do Beira-Rio – o estádio sucessor – a demolição dos Eucaliptos não teve aviso de pauta, palavra de autoridades nem enrolação. Quase que de um dia para outro, grandes máquinas entraram em no gramado (àquela altura transformado em matagal) por onde já desfilaram centenas de craques. Em questão de uma semana, os antigos pavilhões já não passavam de amontoados de vigas, concreto e tijolos.

E a rua Dona Augusta, acostumada a passar as tardes à sombra das arquibancadas, reencontrou o sol. Ao menos por ora, enquanto não brotam ali seis ou sete torres residenciais, que por certo haverão de causar um pouco de tumulto no bairro Menino Deus.

Cerebral Larry

Pego de contrapé com a demolição, tentei produzir uma matéria especial, ao menos para registrar uma despedida do Eucaliptos. Por uma dessas forças maiores que acontecem em redações, ela acabou não vingando.

Por sorte, teve gente que não desistiu, como o pessoal do blog Impedimento. Eles fizeram um HISTÓRICO documentário com o ex-atacante Larry Pinto de Faria, dono do apelido Cerebral Larry – o que convenhamos não é para muitos.

No início do mês, também tive a oportunidade de entrevistar Larry, em uma matéria bem mais humilde. Um senhor simpático, atencioso e cheio de histórias para contar. A que ele me contou foi a vez que ele ganhou de 5 a 1 do Santos. O do Pelé. Dessa vez foi para o ar.

Onde fica(va) o Eucaliptos


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Tristeza e derrota uruguaia em Porto Alegre

 Já tinha feito a cobertura no ano passado, lembrando aqui, Libertadores tem que ter emoção. Como não havia nenhum representante gaúcho (pelo menos originalmnete gaúcho) na final da Libertadores, a torcida migrou para os vizinhos uruguaios. Dessa vez, a vitória não veio, mas a cobertura direto de uma concentração de torcedores carboneros, feita para o CP, tá aí embaixo:

   Nem Grêmio, nem Inter, pois já estavam fora da disputa – e muito menos Santos. Em peso, a torcida gaúcha esteve a favor do Peñarol na noite desta quarta-feira, durante a final da Copa Libertadores. Porém, a mobilização não foi suficiente, e o time uruguaio terminou com o vice da América após levar 2 a 1 no estádio Pacaembu, em São Paulo, o que fez a noite de animados fãs carboneros terminar desanimada.
   Em um dos restaurantes especializados na culinária do país vizinho em Porto Alegre, o El Viejos Panchos, dezenas de torcedores – de variadas idades – compareceram para gritar pelo Peñarol, entre um pedido de Parrillada e outro. Junto a eles, camisetas e mantas nas cores da equipe, preto e amarelo. Com os cânticos, alguns palavrões e a animação dos mais exaltados, o estabelecimento se transformou em um setor do estádio Centenário, de Montevidéu, ao longo dos 90 minutos da partida.
   A cada bola que era tirada de Neymar ou Ganso, a vibração era como a de um gol. E nos chutes e nos cruzamentos do Peñarol, o grito de “Uh” ecoava pelo salão. No intervalo, quando estava 0 a 0, o clima era de otimismo na tentativa de derrotar o Santos. No entanto, já no primeiro minuto o time da casa abriu o placar e, mais tarde, marcou o segundo, desanimando os presentes. O gol carbonero, no fim da partida, deu esperança que não vingou, mas rendeu aplausos no fim do jogo.

Tristeza uruguaia

   Entretanto, o “renascimento” do Peñarol no cenário sul-americano não foi o bastante para o segurança Juan Sosa. “Ninguém quer perder na final”, lamenta ele, que é uruguaio e mora em Porto Alegre desde 1987. “Mas é uma sequência. Começou com a Copa do Mundo do ano passado, agora foi o Peñarol e daqui a pouco tem a Copa América”, teorizou. “Se tudo der certo voltaremos a ser campeões dentro do Brasil”, projetou.
   O mesmo ânimo, contudo, não se repetiu em seu amigo Daniel. Com algumas lágrimas nos olhos, repetiu que não queria perder e quando iria falar para a reportagem, gaguejou e levou a mão ao rosto, afagado por Juan. “Ele foi no jogo do Peñarol aqui no Beira-Rio e lá no Centenário”, explicou o amigo, que lembrou-se de agradecer à torcida gaúcha: “Todo mundo esteve com o Peñarol, valorizando o nosso sangue charrua”

Libertadores tem que ter emoção

   Eu tinha como uma das metas quando criei o blog não misturar muiti trabalho e diversão. Mas tu, caro(a) leitor, já deve ter percebido que volta e meia entram umas matérias desde o tempo lá da Sogipa, passando pelo Jornal do Comércio e chegando ao Correio do Povo. Esses dias publiquei até uma que fiz para a Federação Gaúcha de Judô.
   Enfim, te peço licença para publicar mais uma. De novo, crônica de jogo, algo quase corriqueiro na minha rotina de trabalho. Mas achei que essa ficou legal. E subo ela ainda com um pouco da adrenalina do jogo. Porque partida de Libertadores que se preste tem que ter emoção.
   Emoção que os colorados tiveram ao longo da noite, quando assistiram o fraco desempenho do time no primeiro tempo. Viram um esboço de crime se desenhar no Beira-Rio lotado. Mas que não se confirmou após a redenção da etapa final, quando o mundo pareceu que voltou a conspirar a favor de quem veste vermelho e branco. Isso que eu tentei narrar, numa crônica quase falada.
   Se quiser conferir o link original da matéria, que tem galeria de foto e áudio dos gols, clica ali atrás. Se quiser ler por aqui, siga adiante.

Após sufoco, Inter bate Emelec e se classifica em primeiro do grupo

   Não foi de forma tranquila que o Inter carimbou seu passaporte às oitavas de final da Libertadores, na noite desta terça-feira. Diante de um Emelec matreiro, o time de Falcão ganhou por 2 a 0, mas os gols de Rafael Sobis e Leandro Damião só saíram no segundo tempo, após até vaias serem ouvidas no Beira-Rio. O resultado garante aos colorados a primeira posição do Grupo 6 e a vantagem de decidir em casa na próxima fase.
   Ainda sem adversário definido, mas garantido como terceira melhor campanha na fase de grupos, o Inter volta a campo para as etapas eliminatórias do torneio continental na próxima semana. Antes, no domingo, vai a Caxias do Sul enfrentar o Juventude, pelas semifinais da Taça Farroupilha.

Primeiro tempo medonho

   O cronômetro mal havia apontado o primeiro minuto e Andrezinho cobrou falta colocando o goleiro Klimowicz para trabalhar. E aí você pensa que o Inter, empurrado por quase 40 mil nas arquibancadas, iria pressionar, certo? Ledo engano. Errando passes bobos, os colorados permitiram o adversário gostar do jogo em pleno Gigante da Beira-Rio.
   Menos mal que a sorte estava vestida de vermelho e branco no primeiro tempo. Até os 30 minutos foi mais ou menos assim: o Emelec, que armou um verdadeiro ferrolho no campo de defesa, recuperava a bola antes do meio de campo, fugia para o ataque, principalmente pela direita, e cruzava. Mas lá Renan ou a zaga para rechaçar. Foi assim nos cruzamentos de Gaibor aos 20 e aos 24. E também na tentativa de Iza, logo em seguida, que Bolatti afastou.
   Depois disso, o Inter até acordou. Porém, foi para frente sem efetividade. Aos 32, um D’Alessandro de fraca atuação até então cobrou falta na barreira e, logo após, uma breve sequência de levantamentos na área, que encontraram cabeças equatorianas ou colorados sem mira, como Damião e Andrezinho, que concluíram para fora.
   A situação não estava boa para o Inter. E piorou no final do primeiro tempo. Menéndez chegou a fazer um gol depois de se livrar de Bolívar, aos 39. Entretanto, ele tinha cometido falta e o lance foi anulado. Ao trilar o apito final do primeiro ouviram-se algumas vaias para o time de Falcão. “Não jogamos bem. Precisamos melhorar”, ordenou o vice de futebol, Roberto Siegmann.

Dupla de ataque resolve

   A ordem do dirigente não foi atendida imediatamente. E por cinco minutos a etapa complementar foi uma repetição da inicial. Por cinco, apenas, porque no sexto minuto, quando a torcida gritou com força um “Vamo, vamo Inter”, Rafael Sobis marcou o gol do desafogo. D’Alessandro cruzou da esquerda, Damião cabeceou para o meio e Sobis completou, também pelo alto. Klimowicz chegou a espalmar, fazendo com que a bola entrasse mansamente no gol. Ufa.
   A torcida ainda fazia festa quando Gaibor cobrou falta forte na intermediária no minuto seguinte. Renan caiu no canto esquerdo para evitar o crime. E aí o Inter embalou. Partiu para cima tal qual fazem os atuais campeões da Libertadores quando jogam em casa. Em boa jogada, D’Alessandro arrancou um “uh” da torcida depois de receber toque de calcanhar, aos 18. Após isso, Damião concluiu dentro da área e Klimowicz defendeu com as pernas. O goleiro, em seguida, saiu nos pés de Kleber, para operar outro milagre.
   Controlando o jogo, o gol era questão de tempo. E ele saiu aos 38 minutos – quando o Jorge Wilstermann já havia virado para 2 a 1 contra o Jaguares (resultado que ainda assim classificou os mexicanos), na Bolívia, o que garantia a tranquilidade geral dos torcedores colorados. O segundo gol do Inter começou com Guiñazu. O volante mandou da entrada da área. Klimowicz espalmou. Mas espalmou justamente nos pés de Leandro Damião, que estava no lugar que um centroavante precisava estar, fechar a conta.
   Com o resultado garantido, o Beira-Rio, que inicialmente viveu momentos tensos, terminou a noite com todos os colorados comemorando. “O Falcão arrumou o time e conseguimos os gols que precisávamos”, analisou Siegmann, enquanto a torcida festejava a poucos metros dele. O sonho do tri da América está vivo. Que venham as oitavas de final.

João Derly por mais de um ângulo

   Escrever sobre João Derly não é novidade alguma para mim. Já são quatro anos de convivência com ele, desde os tempos de estágio na Sogipa. Ainda que não seja diária, já rendeu uma amizade agradável. Mas, além disso, temos um vínculo profissional por dois caminhos: eventualmente ele é pauta quando sou repórter do Correio do Povo, e sempre é minha pauta quando estou trajado de assessor de imprensa da Federação Gaúcha de Judô.
   Pra quem não sabe, dias atrás ele voltou a lutar depois de um longo período machucado. Infelizmente, lesionou-se de novo. Passados uns dias de tensão, saiu o diagnóstico, que comprova: o sonho olímpico de João, ainda que difícil, segue vivo. Para alívio dele, que passou mais de uma semana de angústia e incerteza. E minha também, por ver alguém que posso chamar de amigo cheio de esperança e motivado para ir em frente.
   O texto abaixo fiz para o site da FGJ e foi publicado uns dias atrás. Gostei dele, escrito de maneira espontânea ainda que a trabalho, após poucos minutos de conversa/entrevista com ele. Trouxe pra cá também:

Aliviado e motivado, João Derly já inicia recuperação visando Londres

   “Foi um alívio”, confessou João Derly, nesta quarta-feira, após a concorrida entrevista coletiva na qual ele, o médico Luiz Marczyk e o técnico Antônio Carlos Pereira, o Kiko, explicaram a lesão sofrida pelo bicampeão mundial durante a seletiva nacional, no mês passado. O judoca sofreu um estiramento no ligamento e está descartada a possibilidade de cirurgia no local.
   Mas o susto foi grande. Bicampeão do mundo, acostumado a grandes conquistas e a enfrentar desafios, Derly sentiu medo quando teve de abandonar a luta contra Marcelo Contini. “Achei que tinha ‘estourado’. Pouco depois, passou o filme na cabeça sobre a cirurgia, a demorada recuperação. Cheguei a pensar que a Olimpíada tinha acabado para mim”, revelou.
   Dois dias depois da seletiva em Vitória, João Derly voltou a Porto Alegre para realizar exames. Os resultados incertos aumentaram a dúvida se o ligamento cruzado havia ou não rompido, o que significaria mais seis meses de tratamento e consequentemente o fim do sonho olímpico. O pior, entretanto, não se confirmou. O novo diagnóstico apontou estiramento no ligamento medial e uma pequena lesão no menisco. “No máximo, o que vai acontecer é uma artroscopia.”
   A notícia foi recebida com alegria pelo atleta, e seus colegas de clube, além de ter sido capaz de devolver o costumeiro sorriso ao rosto do bicampeão mundial, e, claro, de manter acesa a esperança de estar em Londres no ano que vem, para disputa dos Jogos Olímpicos. Os primeiros passos para chegar lá são as duas competições no Brasil: “Agora eu estou confirmado no Grand Slam do Rio e na Copa do Mundo de São Paulo”, ressaltou Derly. “Vou chegar lá e colocar para cima aqueles japonesinhos”, brincou, novamente, aos risos.

Na tensão, momentos de carinho

   Os dez dias de incerteza foram torturantes. O joelho inchado e o diagnóstico impreciso tiraram um pouco do sono do bicampeão mundial. Mas o carinho recebido por fãs em todos os lugares foi fundamental. “Cheguei a explicar para umas dez pessoas a minha lesão quando fui num mercado. Todas vieram falar comigo para me desejar recuperação”, contou.
   Mas agora o momento será de concentração. Derly já iniciou a sua recuperação com sessões de fisioterapia, em uma academia de Porto Alegre. “Ainda não tenho uma data certa para retornar aos treinos no tatame, mas já faço musculação para reforçar o machucado”, disse. “Vou me resguardar para ter a melhor recuperação possível.”

À prova d’água

   Chato era errar o chute e ter que buscar a bola no terreno vizinho da Nena, desafiando os diversos vira-latas que com ela moravam e, antes de tudo, o muro espinhento que a separava do mundo. Mas azar mesmo acertar o arremate em algum cano ou registro residencial na rua Teixeira de Freitas da década de 1990. Além de azar, era incômodo na certa com pais ou responsáveis.
   Naqueles tempos, a gurizada ainda se criava na rua e o hobby principal do pessoalzinho de oito, dez, 12 anos era o inocente futebol – jogado longe de qualquer play station. Uma bola e duas pedras (ou chinelos, ou mochilas…) já se faziam mais que suficientes para, no mínimo, um três-dentro-três-fora.
   No número 421 da rua, havia – e ainda há – a grade na janela, que na imaginação de vários dos guris muito se parecia com uma goleira, mesmo que meio alta para os padrões de altura da época. Azar. Quebrava o galho e isso que importava. O cuidado era de não chutar muito para a direita, a fim de não ter que se aventurar no terreno da Nena, uma velha que ficou meio louca por motivos que os meninos não faziam ideia.
   Ter que buscar a bola lá, além de tudo, transformava-se em aventura volta e meia, quando um dos muitos cachorros que ela tinha inventava de correr atrás do espertinho. Outro perigo era se a Nena chegasse antes. Corria-se sério risco de ela furar a bola e, pelo menos por uns tempos, adeus futebol.
   Outra recomendação era o de se evitar, ao máximo, concluir por perto do cano de registro, já remendado pelos estouros anteriores. A água que vazava dele significava muito mais que desperdício – nessa época, aquecimento global e racionamento não estava na moda. Estourar o cano representava a certeza do xingamento da mãe, da tia ou do adulto que estivesse mais perto e, no mínimo, um castigo – com sorte, porque, sem, a surra tornava-se inevitável.
   Entretanto, nesses momentos difíceis é que se reconheciam os amigos verdadeiros. Como certa feita, em uma casa mais abaixo da rua. No calor de uma disputa de um gol-a-gol no meio da rua, um dos jogadores pegou na veia. Inspirada na futura Jabulani, a bola tomou um rumo pouco mais pro lado do que planejado e… boom! exatamente no registro.
   Naquele segundo eterno, a água mal começara a jorrar e os dois adversários se olharam com uma trágica cara frustrada. E agora? Incertezas e preocupações tomaram conta da cabeça de ambos. O que fazer? A resposta veio no instante seguinte, quando o irmão caçula de um deles surgiu do interior da casa, olhou a cena e parou, com os olhos arregalados. Não passaram dez segundos até que a mãe – autoridade máxima – visse aquilo.
   Antes de a mãe – começando a mostrar a irritação no rosto – pedir explicações, o jogador dono da casa colocou todas as culpas possíveis no irmão mais novo, que, por sua vez, negou. Mas não o suficiente para evitar as primeiras palmadas ainda em público. Ator, o anfitrião continuou seu teatro e entrou na casa, já solícito procurando o telefone do encanador. Sequer permitiu um olhar cúmplice do adversário, que presenciou tudo surpreendido e comovido com a prova de amizade que acabara de receber.

não chega a ser uma mensagem de Natal, mas, caro(a) leitor, desejo-te um ótimo fim de ano e, sempre nesse espírito de amizades verdadeiras.

(100) dias com ele

Pra fazer analogia com o futebol, foi quase aos 48 do segundo tempo que a gente se deu conta que o técnico do Grêmio, o mítico Renato Portaluppi, completaria 100 dias no comando do time no dia seguinte. Mãos à obra pra uma materinha especial, encurtada pela falta de tempo. Surgiu a ideia de fazer uma arte inspirada no filme 500 dias com Ela. O Jonathas Costa se puxou e, abaixo, o resultado do que foi publicado no CP, em 20 de novembro.

   Ele é mais que um técnico, é um ídolo. Mais que um ídolo, um símbolo, o qual 10 entre 10 gremistas reverenciam pelo passado em Tóquio, pelo presente no Olímpico e, talvez, pelo futuro na Arena. Chama-se Renato Portaluppi, tem 48 anos e é o homem que deu o mundo ao Grêmio em 1983 e que, neste sábado, completa 100 dias como técnico do clube que ama.
   Com contrato renovado, Renato já não tem data para deixar Porto Alegre. O novo vínculo, firmado sexta-feira, não tem prazo de validade e nem multa rescisória. Qualquer das partes pode romper a hora que bem entender, sem custos, sem mágoas. É um casamento, conforme o próprio treinador explicou. E, se a metáfora estiver correta, Renato e Grêmio vivem (mais uma) lua de mel.


   Pudera, foi com Renato que os sorrisos voltaram ao Olímpico. Faz pouco mais de três meses que ele retornou. Antes, a rotina tricolor era de lamúrias e derrotas. A zona de rebaixamento do Brasileirão tinha se transformado em uma constante. O resultado foi o previsto: Silas caiu, Renato chegou.
   Desde o seu desembarque no Salgado Filho, Renato recebeu apoio da torcida, que se deslocou até o aeroporto para recepcioná-lo. Ainda que a reestreia não tenha sido das melhores – a eliminação para o Goiás na Sul-Americana – o novo técnico ganhou um voto de confiança. Sem desanimar, adotou um discurso símbolo na retomada: pensar jogo a jogo.
   À época, traçou duas metas: tirar o Grêmio da zona de rebaixamento e recuperar Douglas, o camisa 10 que andava em baixa, inclusive ouvindo vaias da torcida. Um objetivo dependia do outro. Essa equação começou a ser resolvida logo no segundo jogo do treinador, contra o próprio Goiás, agora pelo Brasileirão: vitória de 2 a 0 e o início da retomada da confiança da equipe que saiu da zona de rebaixamento para fazer a melhor campanha no segundo turno.

Inter é bicampeão da Libertadores

Tá, eu faço um monte de crônicas de jogo por mês, mas nenhuma tinha sido de uma final de Libertadores. Aí, então, resolvi republicar aqui a que já deu às caras no CP:

   A partir deste ano os colorados têm um novo feriado em seu calendário: o 18 de agosto. E, futuramente, nessa data, todo torcedor do Inter vai lembrar que, em 2010, o clube levantou a taça da Libertadores da América pela segunda vez na sua história. E após ganhar de virada do Chivas, por 3 a 2, diante de mais de 50 mil torcedores que abarrotaram as arquibancadas do Beira-Rio.
   Motivos de sobra para idolatrar Rafael Sobis, Leandro Damião e, claro, Giuliano, os autores dos gols que pintaram a América de vermelho.

Susto no apagar das luzes. De novo

   Disputado, aguerrido e sem espaços. Dessa forma, bem característica da principal competição do continente americano, que começou a final no Beira-Rio. Com as equipes se estudando, os marcadores levaram a melhor sobre atacantes e os goleiros tiveram pouco trabalho no início do duelo.
   Os mexicanos ora adiantavam a marcação, ora recuavam, aguardando pelos colorados. Os comandados de Celso Roth trataram de administrar a situação. Só pelos 20 minutos que uma equipe começou a levar mais vantagem sobre a outra. E aí foi a vez do Inter atacar. Mas o Chivas, em um contragolpe aos 22, deu um susto, com um chute de Baéz que tirou tinta da trave.
   O Inter não baixou a cabeça. Aos 23, Tinga fez boa jogada e recuou para Taison. O camisa 7 arriscou e obrigou o goleiro Michel a cair no canto esquerdo para evitar o gol. “Uh”, gritaram os colorados. O mesmo grito foi repetido quatro minutos mais tarde, em falta de cobrada por D’Alessandro, que desviou na barreira e saiu próxima ao ângulo da meta.
   Única referência ofensiva do Inter, Rafael Sobis – escalado de última hora, porque Alecsandro não se recuperou de lesão – se esforçou, porém não conseguiu transpassar a defesa adversária, que abusou das faltas.
   No final do primeiro tempo, o Inter, se já não controlava mais a partida, não era ameaçado de maneira perigosa. No entanto, tal qual o primeiro jogo, os mexicanos souberam aproveitar a única boa chance, aos 42. Depois de lançamento, a Bravo cabeceou da esquerda e Fabían conseguiu uma bela virada e abriu o placar: 1 a 0 e tensão total nas arquibancadas.

Virada no segundo tempo. De novo

   Mal deu tempo para o cronômetro completar o primeiro minuto e Taison havia obrigado o goleiro Michel a fazer uma boa defesa. Dois minutos depois, foi a vez de Rafael Sobis mandar o arqueiro trabalhar. Os arremates serviram de prenúncio de um renovado Inter que veio para o segundo tempo.
   O Colorado pressionava, mas o gol teimava em não sair. A tensão crescia. Era preciso um herói. E, então, ele apareceu, como em 2006. Kleber avançou pela esquerda até o bico da área e cruzou rasteiro. Tinga tentou e não alcançou. A bola sobrou para Rafael Sobis mostrar porque é um eterno ídolo colorado. Gol, tudo igual no Beira-Rio aos 16 minutos. E a história de pesadelo voltou a ser um sonho.
   Pouco depois, Sobis – que já estava cansado – sofreu falta forte e precisou ser substituído. Leandro Damião entrou no seu lugar. E aí brilhou a estrela do técnico Celso Roth. Na sua estreia na Libertadores, o atacante aproveitou a bola entre a zaga e correu mais que a defesa para concluir na saída de Michel. A bola ainda bateu no goleiro e entrou mansamente: 2 a 1.

Giuliano, é claro

   O resultado já dava o título ao Inter com sobras. Mas ainda faltava outro herói brilhar: Giuliano. Predestinado e artilheiro, é claro que ele faria o seu. E marcou aos 43. Um golaço. Entrando na área, ele deu um toquezinho por cima de Michel e anotou o terceiro. Gol digno do Rei Pelé, que assistiu à partida nos camarotes do Beira-Rio.
   Nos acréscimos, o Chivas ainda descontou. A falta cobrada por Bautista esbarrou no travessão. No rebote, a bola encontrou Araujo, que aproveitou e deu números finais ao confronto.
   Mas já não adiantava mais nada. O carnaval já tinha começado. Os fogos de artifício já eram estourados de Porto Alegre, pintando de vermelho o céu da Capital. Era só o começo. Afinal, hoje, a América inteira é novamente colorada.

A bola no centro do mundo

   Prepare o seu fôlego. Nesta sexta-feira, quando o árbitro uzbeque Ravshan Irmatov apitar o início de África do Sul x México, às 11h pelo horário de Brasília, começará o primeiro dos pelo menos 5.760 minutos de bola rolando na Copa do Mundo 2010. Serão 64 confrontos envolvendo 32 nações até o dia 11 de julho, quando o estádio Soccer City, em Johanesburgo, sediará a grande final. Nessa data, será conhecido o novo campeão do mundo.
   Realizada desde 1930, a Copa do Mundo chega à sua 19ª edição e, pela primeira vez em 80 anos, desembarca no continente africano. Nas 18 anteriores, o Brasil foi quem ergueu a taça de campeão mais vezes: cinco. A Itália, com quatro conquistas, vem logo atrás, seguida pela Alemanha, tricampeã.
   Devido ao fuso horário, a maioria dos jogos neste ano serão realizados entre 8h30min e 15h30min. Aqui no Brasil, instituições como bancos, ficarão fechadas durante as partidas da Seleção.

Olho no relógio para acompanhar a Seleção

   O time de Dunga, aliás, entra em campo na África do Sul na próxima terça-feira, às 15h30min, diante da Coreia do Norte. No mesmo horário, cinco dias depois – sábado – o desafio é contra a Costa do Marfim. Fechando a primeira fase, o desafio é Portugal, de Cristiano Ronaldo, às 11h.

Seleção da bruxa

   Antes da bola rolar na África, a bruxa estava solta. E atacando diversos craques. O alemão Ballack, o francês Diarra, o ingleses Beckham e Ferdinand e o português Nani foram algumas de suas vítimas. Lesionados, eles estão fora da Copa. O marfinense Drogba, o inglês Rooney e o italiano Pirlo são daqueles que não chegam nas melhores condições.

Seleção de craques

   A bruxa causou grandes desfalques a essa Copa, sem dúvida. Porém, não o suficiente para estragar o brilho da festa. Pelos gramados sul-africanos desfilarão grandes jogadores. É o caso dos últimos quatro eleitos pela Fifa como melhor do ano: o italiano Fábio Cannavaro, o brasileiro Kaká, o luso Cristiano Ronaldo e o hermano argentino Lionel Messi.

Os 10 estádios

   Os estádios da Copa da África foram uma dor de cabeça para a Fifa. Entre reformas e construções, alguns deles, como o palco da final, Soccer City, ficaram prontos às vésperas. Para o bem dos milhões de torcedores dos cinco continentes, eles estão prontos para receber o maior evento de futebol do planeta. São dez sedes, em nove cidades. Destaque, claro, ao Soccer City, que deve receber 88 mil pessoas na grande decisão.

O mascote

   O recepcionista da vez é o simpático leopardo Zakumi. O bichinho, apresentado ao mundo em 2008, é o mascote da Copa da África. Seu nome vem de “ZA”, abreviação de África do Sul, e “Kumi”, que significa 10, o ano da Copa.

O ídolo-mor

   Dentro de campo, estarão craques de todo o mundo que são idolatrados por onde passam. Mas o maior ídolo desta Copa estará fora das quatro linhas. Nelson Mandela, prêmio nobel da paz e um dos símbolos da África do Sul pós-apartheid. Aos 92 anos e com a saúde frágil, dificilmente irá a alguma partida além da abertura, mas sua figura é reverenciada por todos na África do Sul.

A estrela mais cobiçada

   Ok, todos estarão de olho nos craques do campo. Mas, no fim, a torcida quer ver a sua seleção com ela, a taça de campeão. Criada em 1974, a Taça Fifa foi elaborada pelo artista italiano Silvio Gazzaniga. O campeão a fatura, mas devolve antes do início da Copa seguinte. Brasil, Alemanha, Argentina, Itália – todos duas vezes cada -, além da França, já tiveram o prazer de levá-la para casa.

Clube dos campeões do mundo

   Falando em campeão, esse é um clube restrito. Apenas sete seleções – e todas elas estão na África do Sul – já bordaram ao menos uma estrela acima do escudo: Brasil (5), Itália (4), Alemanha (3), Argentina (2), Inglaterra (1) e França (1).

Brasil x Argentina também na casamata

   Falando em clubes restritos, esse é mais ainda. Tem só dois integrantes: Zagallo e Beckenbaeur. Apenas eles já venceram uma final de Copa do Mundo como jogador e como técnico. Na África, dois homens brigam para também se gabar desta façanha. Justamente Dunga e Maradona. Nosso técnico foi campeão em 1994 e “El Diez” em 1986.

Algodão no ouvido

   Os sul-africanos adoram, não abrem mão, mas para quem assiste pela TV, as vuvuzelas – as cornetas típicas usadas pelos torcedores nos jogos – são um inferno. A Fifa pensou em proibi-las, mas desistiu. Uma alternativa mais silenciosa é acompanhar a cobertura completa do Correio do Povo. Começa no caderno especial diário encartado na versão impressa e segue 24h no site do CP.

Para saber mais

   Ao longo das últimas semanas, o Correio do Povo elaborou uma série de especiais sobre a Copa do Mundo. Saiba curiosidades como as melhores defesas, os pernas de pau, os frangos inesquecíveis, as finais marcantes, as maiores pancadarias, as eliminações mais legais da Argentina, os campeões de papel, os craques não lembrados, os brasucas que defenderam outros países, as “feras” da Copa e as melhores estreias do Brasil. Clica no link, confere, e te diverte.

Para saber mais ainda

   Agora, se você quiser ficar por dentro de tudo o que rola nesta Copa do Mundo, clica aqui no infográfico especial do Correio do Povo sobre o Mundial. Datas dos jogos, horários, seleções e tudo mais aqui, à sua disposição.

Materinha feita horas antes da Copa pro CP

Desabafos alheios. Ou momento confessional nº 8

   Lembro do Mestre Leonam ensinando e repetindo inúmeras vezes os mandamentos do jornalismo: “Mandamento número: jornalista não pode ser ingênuo; mandamento número dois: jornalista não pode ser ingênuo; mandamento número três: jornalista não pode ser ingênuo”.
   Por mais que tenha aprendido a lição, passado com uma das notas mias altas naquela disciplina e sempre me perguntar, quando dou por encerrada uma matéria, se o professor aprovaria o texto, às vezes acho que não compreendi ainda essa lição. Em momentos como agora, que não consigo – e não quero – acreditar nos boatos que li há pouco.

“Governo propõe pensão para tricampeões do mundo”

Os jogadores campeões mundiais com a seleção brasileira de futebol poderão ganhar uma ajuda econômica, tão desejada a muito tempo. Nesta quinta-feira, o Governo enviou oficialmente ao Congresso um projeto de lei que prevê uma pensão vitalícia para os atletas triunfantes nas Copas de 1958 (Suécia), 1962 (Chile) e 1970 (México), especialmente para os que apresentarem maior dificuldade financeira.

A Presidência informou que o texto, publicado nesta quinta-feira no Diário Oficial da União, será estudado pelo Congresso antes de ser aprovado nas contas de Brasília. O projeto cederá um prêmio de R$ 100 mil para cada um dos jogadores que compuseram os elencos das três conquistas mundiais. Em caso de falecimento, os herdeiros receberão a quantia.

Somado ao valor depositado de forma imediata, o Governo Federal pagará uma pensão mensal para cada jogador, igualando-a à máxima admitida atualmente no país (R$ 3.416). Dessa forma, o estudo, que já dura dois anos, está perto do final esperado pelos ex-vencedores dos três primeiros títulos brasileiros de Copa do Mundo.

A iniciativa para esta ajuda monetária surgiu quando o título do Mundial de 1958 completou 50 anos. Em uma cerimônia em Brasília na época, os atletas daquela geração mostraram a dificuldade financeira a qual viviam alguns deles e comoveram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que sugeriu a proposta deste acordo e prometeu acelerar este processo.

Detesto um (não)debate assim sobre política, mas essa foi demais! Vou ponderar por partes, tentar ser breve e não me irritar muito:

1) Sou completamente favorável a todas as formas de reconhecimento público a heróis, sejam eles bombeiros, lixeiros ou atletas. Poucos assuntos são capazes de mobilizar tanto a opinião público e a população como o esporte. O esporte une, gostem ou não, o nosso distraído povo brasileiro. É uma lástima e uma falta de consideração ver pessoas que representaram o nosso país passando por dificuldades financeiras. Tão triste quando um bacharel desempregado, sem dúvida.

2) Em rodas preliminares de discussão na internet, em blogs e twitters, notei certa indignação e perguntas do tipo: “E os que não foram campeões em 1966, como que ficam?”. [explosão e perdão pelo palavrão] Não consegui evitar o pensamento: “PUTA QUE PARIU, parem de pensar somente em futebol, CARALHO!” Temos 200 milhões de pessoas nesse país, somos conhecidos pela grande variedade e mistura de culturas, mas só pensamos em futebol? (E escrevo isso depois de participar da cobertura de dois grandes jogos nessa semana)

3) Se dá para chamar de herói (e ficar com pena e dar pensão) àqueles campeões mundiais de 1958, 1962 e 1970, como classificar os bicampeões mundiais do basquete (1959 e 1963) ou Natália Falavigna, campeã mundial no taekwondo, ou João Derly? Também estavam representando o mesmo país e foram campeões do mesmo mundo, não? Se vamos dar uma bolsa-campeão-do-mundo para um, abre-se o precedente para todos os outros. Faça-se justiça nessa lambança, então. Não vamos esquecer nossos campeões do mundo. E já vou lembrando: o Brasil já ganhou algumas vezes o Mundial de Punhobol.

4) Sonho em ver o Brasil uma potência olímpica. E fico muito triste ao ver que temos plenas condições e desperdiçamo-as facilmente. Muito em parte da mídia, que privilegia demais o futebol, muito em parte do governo, que não investe corretamente esporte. Até por isso fiquei feliz com a escolha das sedes da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016. Ao contrário do Mestre Leonam, acho que isso pode ser um incentivo ao esporte. A mais pura ingenuidade minha, eu sei.

5) [hora de colocar o nariz de palhaço, caro(a) leitor] Eu sei que o dinheiro que querem dar aos atletas não chega a ter tanto impacto nos cofres do governo. Um milhãozinho a mais ou a menos nada mais é que a quantia desviada em alguma esquina de Brasília. Mas acho que sou obrigado a escrever isso. Caindo na demagogia: antes de pensar em ajudar nossos heróis do passado – o que é justo e honroso -, o Governo Federal poderia investir mais em escolas e universidades públicas – o que é necessário -, reformar um hospital – o que é urgente – ou, sei lá, tapar uns buracos de qualquer BR por aí – há várias precisando de uma manutenção.

Updade
Enquanto isso, nos outros esportes (que também têm campeõesm mundiais)