Das coisas que ficam para trás

Foi meio que sem querer que entrei na rua Dona Augusta numa tarde de fevereiro e me deparei com aquele clarão. Uma luminosidade estrondosa que eu não havia reparado na minha vida inteira. Algo estava diferente. E, de fato faltava um integrante do cenário. Ou melhor, ele ainda estava sendo retirado. Uma estrutura fincada no bairro Menino Deus havia mais de 80 anos, o Estádio dos Eucaliptos.

Para quem não sabe, os Eucaliptos foi a casa do Inter entre 1931 e 1969. Sediou dois jogos da Copa do Mundo de 1950. Para quem não sabe, meus avós moraram por quase toda a sua vida na rua Dona Augusta, defronte a um dos portões do estádio, até morrerem, em 2010 e 2011.

Desativado há mais de quatro décadas, o Eucaliptos passou por diversas fases nesse interim. Chegou a ser até um autódromo durante um tempo. Fazia uns dez anos sediava quatro quadras de futebol sete. Antes, em 1999, teve um suspiro de vida, ao ter seu campo principal reformado, recebendo até um jogo amistoso do time principal do Inter.

Ao contrário de toda a mídia que a novela da assinatura do contrato de remodelação do Beira-Rio – o estádio sucessor – a demolição dos Eucaliptos não teve aviso de pauta, palavra de autoridades nem enrolação. Quase que de um dia para outro, grandes máquinas entraram em no gramado (àquela altura transformado em matagal) por onde já desfilaram centenas de craques. Em questão de uma semana, os antigos pavilhões já não passavam de amontoados de vigas, concreto e tijolos.

E a rua Dona Augusta, acostumada a passar as tardes à sombra das arquibancadas, reencontrou o sol. Ao menos por ora, enquanto não brotam ali seis ou sete torres residenciais, que por certo haverão de causar um pouco de tumulto no bairro Menino Deus.

Cerebral Larry

Pego de contrapé com a demolição, tentei produzir uma matéria especial, ao menos para registrar uma despedida do Eucaliptos. Por uma dessas forças maiores que acontecem em redações, ela acabou não vingando.

Por sorte, teve gente que não desistiu, como o pessoal do blog Impedimento. Eles fizeram um HISTÓRICO documentário com o ex-atacante Larry Pinto de Faria, dono do apelido Cerebral Larry – o que convenhamos não é para muitos.

No início do mês, também tive a oportunidade de entrevistar Larry, em uma matéria bem mais humilde. Um senhor simpático, atencioso e cheio de histórias para contar. A que ele me contou foi a vez que ele ganhou de 5 a 1 do Santos. O do Pelé. Dessa vez foi para o ar.

Onde fica(va) o Eucaliptos


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Não é tão difícil assim

Muçulmanas com seus corpos devidamente escondidos cruzam com morenas atléticas suadas e seminuas; Negros correm ao lado de brancos em meio a conversas sobre como foi a virada de ano no calenário gregoriano; Héteros e homossexuais chamam a atenção da mesma criança que anda com sua bicicleta, acompanhada pelos pais.

Vips, pseudovips e o cordão dos puxa-sacos olham a paisagem de dentro de carros importados e menos abastados contam as moedas para o ônibus atrasado no congestionamento de verão – isso enquanto hippies, a pé, passam ao lado. Ciclistas mais apressados forçam a pedalada em busca da saúde ou da não-poluição.

Argentinos vindos de Buenos Aires “sacam” fotos da paisagem, enquanto uruguaios de Montevidéu se esforçam para entender o português acelerado falado na Ilha de Santa Catarina. Europeus sisudos descobrem que o Brasil vai um pouco além do Nordeste e do Rio de Janeiro.

Carros com placas estrangeiras lotam Ao mesmo tempo, o pescador vai ao mar querendo em voltar com algumas dezenas de peixes. Como faz diariamente. Há anos.

Todos mais ou menos no mesmo lugar. Isso tudo sem discriminação, tudo isso sem preconceito. A vida bem que poderia se resumir a um passeio na orla de Florianópolis às vezes.

Não tá fácil pra ninguém

Quem planta colhe (e vende depois)

   Em tempos de crise, capitalisas norte-americanos apelam a (ex-)comunistas chineses para que mantenham seus investimentos multi-nacionais em países da Europa. A medida tem como objetivo salvar os lucros de engravatados e empregos de pé-rapados, mantendo sã a economia global.
   Já os cubanos, que sabem como ninguém como vender um charutinho no mercado negro em plena luz do dia, agora vão afrouxar um pouco as rédeas da tão exaltada Revolução. Sonham – se a crise de além mar permitir – com algumas moedinhas a mais no fim de cada mês.
   Por sua vez, os novos-ricos governantes brasileiros – espertos como são – já pensam em aumentar o preço da gasolina, pra garantir. Mal sabem eles que os compatriotas que acordam cedo para trabalhar, os mais preocupados com o resultado do futebol do que essa tal de crise, arranajaram outra solução: plantar dólar. Nunca esteve fácil para ninguém, afinal. Especialmente para eles

@SolitárioPopular

As pessoas curtem o que ele posta.
As pessoas retuitam suas micromensagens de 140 carcteres.
As pessoas escrevem HAHAHA nas suas piadas virtuais.
As pessoas comentam seus check ins
Mas tudo o que ele queria, naquele específico momento, era um abraço (humano).
Talvez fosse sentimento, não tinha certeza – ou não se recordava. Não era hashtag.
Vasculhou, vasculhou e em meio a muitos números binários não encontrou nada mais que pixels.
Teria ele, em meio a tantas redes, perdido seu lado social?
Teriam aquelas pessoas transformado-se apenas em contatos?
Já era madrugada, como sempre. Dormiu encucado.
Não curtiu.

Volta ao mundo em menos de 30 minutos

   John e Mike são amigos há dez anos. O primeiro trabalha numa delegacia e o segundo, é repórter de uma rede de televisão. Os dois moram em Londres, Inglaterra.
   Como ossos dos respectivos ofícios, seguidamente eles cumprem seus plantões nos garoados dias londrinos. Às vezes, o horário de trabalho de ambos coincide.
   Por sinal, foi em um desses plantões que se conheceram. Entre crimes, prisões e pautas firmaram uma amizade que não é das maiores, mas eficiente. Volta e meia, Mike telefona para John para apurar alguma informação ou conseguir qualquer bastidor de determinado caso. O policial, por sua vez, já ligou para o jornalista pedindo “uma forcinha” para que seu trabalho tivesse um pouco mais de repercussão.
   No último sábado, os dois estavam de plantão. Mas estavam mais atentos ao louco aquele que matou dezenas na Noruega. Ambos têm medo que o terrorismo volte a dar as caras em Londres, potencial alvo terrorista.
   A tarde seguia sem mais casos assombrosos até uma ligação na delegacia de John. Uma mulher teria sido encontrada morta num apartamento no Norte da cidade. Ele deu tchau à televisão e foi atender a ocorrência, preparando-se para ver o 15º corpo no mês.
   Chegaram no endereço. A mulher realmente estava morta, mas espera aí. Ela é famosa. Ela é aquela cantora… Amy Winehouse. Na hora, pouco antes das 16h, John pegou seu celular e enviou uma mensagem para Mike: “Tenho uma boa para ti”.
   A quadras de distância, Mike viu o texto e ligou para o amigo, com quem não falava há uns bons 20 dias. Ao saber da informação pela fonte quente, avisou seu editor, que correu para colocar no ar, na sua TV, a Sky News. A rede noticiou a morte da cantora, aos 27 anos, e furou simplesmente todo mundo. “Demos antes.”
   A rápida passagem da Sky News gerou uma reação em cadeia. Um a um, os veículos de comunicação de todo o mundo foram publicando a notícia. Tudo com breves palavras ou com uma ou duas linhas. Os textos – muitos com erros de digitação da pressa do plantão de sábado – não continham mais informações que “Amy está morta” e “Amy morreu”. Em menos de meia hora, a nota já havia atravessado oceanos e o planeta inteiro sabia.
   Mal haviam se passado meia hora da ligação de John para Mike. Tempo em que um sem número de mulheres perdem no banho e que milhares de pessoas tiram para dormir depois do almoço. Um tempo, que até não muitos anos atrás, seria pouco mais que nada para quem planeja atravessar o mundo.
   Mas, com o corpo quente ainda, ninguém tinha certeza, tanto que a informação distorceu em algum ponto do caminho. “Overdose” e “cantora foi encontrada no carro” foram alguns dos desvios. Com medo do vexame histórico, todos os veículos creditaram a informação a “uma rede de TV britânica”.
   Foi só enquanto os estagiários dos jornais já estavam cansados de procurar, editar e publicar fotos da cantora que a polícia de Londres se manifestou. Felizmente – para os jornalistas de primeira viagem – Amy realmente estava morta. Já dava para publicar o obituário – que estava sendo feito às pressas pelo plantonista.

*É claro que o começo da história acima é ficção – embora não deva ter sido muito diferente. Fato é: devido à internet, a polícia chegou apenas menos de meia hora antes que o mundo inteiro ao local onde Amy foi encontrada. Como numa grande aldeia global, as pessoas foram se passando a informação até ela chegar a qualquer entendiado na parada do ônibus que portasse um smartphone. A velocidade – e a responsabilidade – disso tudo é tão grande que vale a reflexão, não acham?

Só as carecas especiais ganham beijos

   Não se beija uma careca impunimente. Nunca. Há de se ter carinho para cometer tal ato. É preciso amor – e, em alguns casos ficar na ponta do pé – para levar os lábios até o topo da testa.
   Quem escreve isso é quem muito já beijou uma careca. Um grande e especial aeroporto de mosquito, cercado de cabelos enbranquecidos ao longo de 89 anos e meio de uma longa vida.
   Uma careca simpática, que guardava uma mente curiosa, cuja trajetória começou lá no interior das Minas Gerais. Que de lá saiu e quase foi à Europa em 1945, mas que por sorte do destino atracou num Porto Alegre.
   A careca pertenceu a um mineiro que se esqueceu de falar uai, embora sempre perguntasse como andava o Belo Horizonte da família fã de martelinho de cachaça e pão de queijo. E que nunca deixou perder a simplicidade daquela terra.
   Um mineiro que foi meu avô. Que por um pequeno lapso do tempo e de um outro coração foi sempre meu único avô. Um cara legal, que partiu de mansinho para reencontrar sua felicidade há pouco mais de um mês.
   E que deixou saudades.

Para seguir vivendo antes que o mundo acabe

   E o fim do mundo que iria terminar dois dias trás não aconteceu. Inclusive, já é segunda-feira – ou terça, no mínimo, pra quem ler este post e estiver no Japão. Tudo parece estar rotineiramente normal depois desse certo frisson da semana passada. No Twitter, o que era #apocalipselive virou #fimdomundofail. E todos acham graça, afinal a vida continuou.
   Confesso que esse assunto, no meu âmago, assusta um tanto – embora não demonstre e até passe incredulidade para os que conversam comigo (papo furado para não transparecer sinais de medo). Admito, deixando um pouco a falsa coragem de lado, que acharia extremamente desagradável estar por aqui e ter que ver, ao vivo, o mundo acabar.
   Se não me falha a memória, já sobrevivi a uns dois fins de mundo. O primeiro seria agosto de 1999, acho. O segundo – clássico – na virada para o ano 2000. Foi igual ao desse 21 de maio, só não tinha redes sociais. Rolou o boato, que cresceu e gerou aquela expectativa. Tal qual hoje, a vida seguiu. Que bom!
   Avaliando um pouco mais, encontrei outras coincidências. Sempre quis viver e para justificar isso mentalizava o que teria de fazer antes de dizer me autorizar a dizer: “Sim, agora eu posso morrer”. A desculpa para as duas primeiras foi a mesma de que outros colegas meus de aula. Óbvia para um adolescente. Eu não podia morrer virgem. Passar por essa vida sem comer ninguém seria lamentável.
   Neste ano, não foi esse o pensamento, claro. A análise aprofundou-se mais. Olhei para trás e vi o quanto conquistei e acabei sentindo um tanto de orgulho. Entre altos e baixos, me formei, fiz gente feliz, viajei, conquistei um espaço para chamar de meu, uns empregos legais e até pós-graduando na área que gosto sou hoje, aos 25 anos de idade. (Para constar: a virgindade já faz coisa de um passado remoto.)
   Mas não pude deixar de imaginar novamente o que eu ainda preciso fazer. E, por mais coisas boas que tenha colocado na bagagem, há outras infinidades que pretendo realizar antes do inevitável ato de desencarnar. Por mais que a haja bonança, a gente sempre quer melhorá-la, concluí.
   Felicidade, em qualquer grau que seja, é viciante. Quaisquer ameaças de que ela acabe assusta.
   Concomitantemente, o friozinho na barriga que ocorre em todas as despedidas me acompanhou nos últimos dias da semana passada. E se realmente fosse o fim? Porém, esse pensamento perdeu força facilmente na rotina diária de jornalista.
   Entre as centenas de e-mails que se candidatam a virar notícia e ser publicada, boa parte delas tem a morte como pretexto. Como aconteceu na quinta, na sexta, no sábado e vai seguir no domingo, na segunda etc. Não pude evitar de pensar, no dia 21, assim que li algum e-mail desses. “Ih, o mundo acabou antes para esse aí”.
   O que se passa, nesta sociedade tão conectada, tão informada por leitores que avisam sites que noticiam via internet, por onde são lidos por outros leitores, que têm celulares online, e ligam para rádios, que passam adiante o que vai ser informado na TV e sair no jornal do outro dia, que será levado até os fundos do cafundó, através de cinco linhas impressas em meio a anúncios publicitários? O que passa é que tragédias diárias viraram corriqueiras e, dependendo, poucos dão bola para elas.
   O mundo termina diariamente para um monte de gente e nem todos notam, assim como nem vários outros sequer querem notar. Pensando bem, ele nem começou para um considerável número de pessoas tão iguais a mim e a ti, caro(a) leitor. Ou dá para chamar de vida acordar na miséria, sem perspectivas ou, pior, sem motivo para levantar e sentir frio, medo, fome ou tudo isso junto? Não.
   Junto a toda essa reflexão, lembrei que uma vez – pouco antes de um dos fins de mundo que acabei por sobreviver – vi em algum meio de comunicação de que na virada do ano 999 para o ano 1000, também houve esse ultimato. Tudo ia pelos ares, mas teria tido comemoração, porque a vida, à época, não era boa e seria melhor se tudo tivesse fim mesmo – o que me faz concluir que temos pessoas um milênio atrasada entre nós e achamos normal. Como se sabe, a Terra continuou a rodar.
   Passado esse outro apocalipse frustrado, no próximo ano teremos outro. E eu certamente ficarei apreensivo enquanto digo que não acredito que a vida seguirá e tal e coisa. Assim como também vou tentar me convencer de que preciso de mim vivo uns aninhos a mais. Em meio a tantos mundos conectados – conectados ou não – tenho que fazer o meu seguir em frente. E acredito que não deveria ser apenas eu.

Brisas de março

   Ao acordar deparei-me com ele, que havia muito não o sentia, mesmo que em menor escala. “Frio? Ah, é… era assim mesmo.” O ventilador desligado já tinha sido um sinal que passou batido na noite anterior. O pior do verão de Porto Alegre começa a ficar para trás.
   Cheguei à rua e – surpresa – não senti aquele bafo de prévia do inferno emergente do asfalto quente da minha cidade. Nem o suor tão comum e presente desde dezembro. Aliás, na rua, os cabelos até revoltaram-se um pouco mais com uma certa brisa de março. A temperatura? Algo abaixo da casa dos 30 graus. Alívio.
   São esses ventos de março que trazem novamente a vida a Porto Alegre. Para o bem e para o mal. Fazem com que o tédio e o mormaço típicos de janeiro e fevereiro, aos poucos, deem espaço às confusões e engarrafamentos de uma pequena cidade grande apressada e trancada no trânsito.
   Mas também devolvem aqueles amigos sortudos que tiram férias no verão. Três meses depois, o happy hour, as peladas e as rodas de chimarrão voltam a ficar completas.
   Temperada de rotina, a brisa de março sopra para longe a falta da vida a qual eu me acostumei. Ainda que seja temporário, pois, no frio do inverno, muitos hão de ansiar pelo calor diário do verão porto-alegrense. A vida, enfim, é feita de saudade. E da falta do que a gente não tem.

À prova d’água

   Chato era errar o chute e ter que buscar a bola no terreno vizinho da Nena, desafiando os diversos vira-latas que com ela moravam e, antes de tudo, o muro espinhento que a separava do mundo. Mas azar mesmo acertar o arremate em algum cano ou registro residencial na rua Teixeira de Freitas da década de 1990. Além de azar, era incômodo na certa com pais ou responsáveis.
   Naqueles tempos, a gurizada ainda se criava na rua e o hobby principal do pessoalzinho de oito, dez, 12 anos era o inocente futebol – jogado longe de qualquer play station. Uma bola e duas pedras (ou chinelos, ou mochilas…) já se faziam mais que suficientes para, no mínimo, um três-dentro-três-fora.
   No número 421 da rua, havia – e ainda há – a grade na janela, que na imaginação de vários dos guris muito se parecia com uma goleira, mesmo que meio alta para os padrões de altura da época. Azar. Quebrava o galho e isso que importava. O cuidado era de não chutar muito para a direita, a fim de não ter que se aventurar no terreno da Nena, uma velha que ficou meio louca por motivos que os meninos não faziam ideia.
   Ter que buscar a bola lá, além de tudo, transformava-se em aventura volta e meia, quando um dos muitos cachorros que ela tinha inventava de correr atrás do espertinho. Outro perigo era se a Nena chegasse antes. Corria-se sério risco de ela furar a bola e, pelo menos por uns tempos, adeus futebol.
   Outra recomendação era o de se evitar, ao máximo, concluir por perto do cano de registro, já remendado pelos estouros anteriores. A água que vazava dele significava muito mais que desperdício – nessa época, aquecimento global e racionamento não estava na moda. Estourar o cano representava a certeza do xingamento da mãe, da tia ou do adulto que estivesse mais perto e, no mínimo, um castigo – com sorte, porque, sem, a surra tornava-se inevitável.
   Entretanto, nesses momentos difíceis é que se reconheciam os amigos verdadeiros. Como certa feita, em uma casa mais abaixo da rua. No calor de uma disputa de um gol-a-gol no meio da rua, um dos jogadores pegou na veia. Inspirada na futura Jabulani, a bola tomou um rumo pouco mais pro lado do que planejado e… boom! exatamente no registro.
   Naquele segundo eterno, a água mal começara a jorrar e os dois adversários se olharam com uma trágica cara frustrada. E agora? Incertezas e preocupações tomaram conta da cabeça de ambos. O que fazer? A resposta veio no instante seguinte, quando o irmão caçula de um deles surgiu do interior da casa, olhou a cena e parou, com os olhos arregalados. Não passaram dez segundos até que a mãe – autoridade máxima – visse aquilo.
   Antes de a mãe – começando a mostrar a irritação no rosto – pedir explicações, o jogador dono da casa colocou todas as culpas possíveis no irmão mais novo, que, por sua vez, negou. Mas não o suficiente para evitar as primeiras palmadas ainda em público. Ator, o anfitrião continuou seu teatro e entrou na casa, já solícito procurando o telefone do encanador. Sequer permitiu um olhar cúmplice do adversário, que presenciou tudo surpreendido e comovido com a prova de amizade que acabara de receber.

não chega a ser uma mensagem de Natal, mas, caro(a) leitor, desejo-te um ótimo fim de ano e, sempre nesse espírito de amizades verdadeiras.

Minha letra virou punk!

   Homeopaticamente foi se afastando do cotidiano. Mas pouco se notou sua ausência. Logo ela, tão paparicada em anos passados. Tempos em que era sua obrigação ser bonita ou, no mínimo, caprichada. Legível.
   Minha letra. Fabricada pela minha mão direita há mais de 20 anos. Hoje soa tão largada, quase obsoleta. Substituída diariamente por Times, Tahomas, Trebuchets outras fontes artificiais, tanto com quanto sem serifa.
   Antes pública, atualmente é quase exclusiva. Raramente dá as caras ao mundo, escanteada cumprindo um destino que pode parecer cruel se lembrar que outrora fora trabalhada e quase desenhada entre as linhas paralelas dos cadernos de caligrafia.
   Agora, praticamente só aparece apressada e rebelde em papéis alheios, em geral durante entrevistas, quando é pouco notada. Assimétrica, por vezes se faz um garrancho desafiador à própria compreensão criptográfica. Minha letra virou punk graças ao teclado do computador.
   Quase deixada de lado por causa do Word e do Bloco de Notas (virtual), tem dias que é abandonada por completo. Nem um mero “a”, que dirá uma palavra. Mesmo a mão direita, no passado companheira, agora parece estranhar um lápis ou uma caneta. Onde se digita nisso?
   Resignada com seu destino, suspira ao ver cartas antigas em papéis já amarelados, mas com a caligrafia impecável. Nunca será nem perto disso. Apenas contenta-se: toda e qualquer assinatura precisa dela. Ali vive seu refúgio, sua glória, os poucos minutos de fama que ainda restam. Pelo menos enquanto a tecnologia da biometria não pegar de vez.