Por uma nova melodia

No canto do bar, ela ouve sozinha uma canção sobre paixão. O indisfarçável sorriso cúmplice denúncia que conhece de cor tais versos.

Elegantemente trajada com um vestido negro como o luto, ela hoje já deixa à mostra um ombro, valoriza uma curva a mais. As dores, enfim, sempre passam com o tempo.

Agora esperançosa, ela aguarda ansiosamente um novo tom, uma música de amor. Quer conhecer outros versos e quiçá viver novas estrofes.

Pontos de vista, parte 2

   Já havia passado algumas dezenas de minutos com os dois naquele canto e ele nada. Apesar de todo o musical barulho em volta – e, ok, certa quantidade de álcool capaz de atrapalhar o raciocínio – ele ainda não tinha entendido o que ela lhe falava.
   É que era tão óbvio, mas tão óbvio, que a mensagem dela não saía pela boca. Tudo o que queria dizer, passava pela cor de mel do seu olhar. Só ele não percebia. Coitado.

Pontos de vista, parte 1

   De mau gosto, adorava brincar, dizendo que ela ocupava muito espaço na cama. Entre um gole excessivo de cerveja e outros, revelava que ela quase o fazia cair toda noite. “É muito espaçosa. A cama é grande, mas mal dá para nós dois.”
   Um dia, ela cansou e foi-se embora. Dormiu em outro local, sem causar incômodo. Depressivo, o ex-brincalhão pôs a cama para venda. Iria se desfazer do leito outrora tão espaçoso por um único e simples motivo: ficou muito vazia.

Quatro centímetros

   Tinha uns quatro centímetros. Ou nem isso. Quem sabe um pouco mais. Não importa. Acho que tinha quatro centímetros. Esse era o tamanho do vão que a folga entre a blusa e o busto dela permitiu ao Universo naquele exato momento. Quatro meros centímetros que provocavam a imaginação sem revelar nada mais que a já desejada tez morena.
   Hipnotizante. Um espacinho de nada capaz de parar o mundo por um segundo, de desviar todo o olhar. Imã à concentração de qualquer bom homem, mesmo que tenha sido estreito, muito estreito. Um vão desafiador, até. Ou frustrante, para os pessimistas.
   Certo é que quem dali tirar a revelação sem dúvida acordará no paraíso.

*Longe de ser uma releitura, mas o tema se assemelha com a desse texto, cujo blog é ótimo. Recomendo!

Labirinto contrassenso

   Eterno viajante, sem sequer um porto seguro nem destino certo. Mesmo cansado de caminhar, segue. Busca por algo que não sabe bem o que é, mas que terá certeza quando encontrar.
   Melancolicamente feliz, continua seu caminho. Talvez seja errante, quiçá aventureiro. Vive. Entre o novo e o velho, se perde no presente. Confunde-se no agora, teimosamente incerto.
   Está num labirinto. Vai, volta; sobe, desce; à direita, à esquerda. Tudo termina sempre no mesmo lugar. No entanto, prossegue. Porque tudo termina. Sempre.
   Basta apenas achar o ponto certo.

Inconsciente coletivo

   ”Quero apenas que me prometas que esse é um segredo só meu e teu. E que ele será desfrutado somente na mais tenra nostalgia – aquelas que chegam de surpresa e nos colocam um sorriso no rosto. Se tudo realmente precisa mesmo voltar ao normal, desejo te transformar em uma querida lembrança. E torço para que sejas recíproca.”
   Silêncio
   ”Também não queria que a próxima manhã chegasse tão depressa.”

A lição do homem das tesouras

   Fidelidade masculina não se exige, se conquista. É assim e ponto, nem adianta discutir ou tentar outro modo. Um homem nunca será fiel simplesmente porque outrem quer. Será, sim, a quem cativar tal merecimento.
   Ele só será fiel a quem lhe ganhe de verdade, seja o coração, seja a confiança. Para tê-la, é necessário ter a humildade de reconhecer a concorrência espalhada pelo mundo. E, consciente disso, reunir a confiança suficiente para tornar-se insubstituível.
   Não é fácil, mas é bem possível. Certo é que é um erro brigar querendo a exclusividade. Se não fizer por merecer, não tem jogo. Pode até conseguir no início, porém mais cedo ou mais tarde a coisa desanda… E não adianta vir com cobranças depois.
   Fidelidade masculina, às vezes, é um assunto simples demais para mulheres compreenderem. Por vezes, tentando alcançá-la, extrapolam. Ao invés de comportarem-se como mulheres, viram fiscais rabugentas. “Amor, onde você está. Seu amigo, aquele, está junto? Que horas você chega, vai demorar muito?”
   Boa parte delas complica o que é tão fácil. Algo que qualquer (bom) barbeiro sabe como ninguém. Sim, os barbeiros de mãos calejadas de tesouras. Mestres nessa arte, sabem a medida certa entre a conversa sobre a última rodada do futebol e o silêncio compreensivo das manhãs de segunda-feira. Nada de cobranças ou problemas. Pelo contrário, muitas vezes ainda apontam uma solução.
   E, detalhe importante: eles nunca ligam enraivecidos se, por acaso, souberem que o corte de cabelo do mês ocorreu em outro lugar e sequer cogitam a possibilidade de provocar ciúme enquanto passa a tesoura por outra cabeça. Nada disso.
   Há barbeiros que conseguem fazer um homem atravessar a cidade para encontrá-los. Sim, o caminho da fidelidade masculina pode ser ridiculamente simples.

A metade errada

   Não tivera medo de falar, muito menos se furtou. Na verdade, disse a ela, mas em outra linguagem, que talvez não tenha sido entendida. Ou talvez tenha sido ignorada.
   Para ele, as palavras eram peças meramente descartadas do relacionamento. Com o olhar, transmitia tudo aquilo que sentia. Com as mãos, se expressava. Bastava.
   Mas ela, como tantas outras, fazia questão de ouvir. Queria tudo registrado, se desse até em papel passado. Sabe-se lá para quê. Gastava tanto tempo em exigir que perdeu a mensagem.
   Ele quis uma cúmplice, encontrou uma burocrata. Ela quis a segurança dos cartões assinados, encontrou um poeta qualquer.

O meu caso com Betty, a Feia

   Na verdade não foi bem um caso que tive com Betty, a Feia, em certa feita, nos áureos tempos da adolescência colegial. Não posso chamar assim, pois, simplesmente, levei um fora dela. Com Betty, aprendi a primeira lição que um homem deve saber: nunca duvide de uma mulher. Mesmo as não maquiadas.
   Lembro-me que Betty e eu éramos bastante amigos. Tanto ao ponto de eu praticamente tratá-la como um par, despejando nela bobagens que um guri menor de 18 anos é capaz de argumentar. Dar em cima, nem pensar. Não fazia a menor noção do que tinha por trás daquele disfarce dos óculos e do rabo de cavalo.
   Contentava-me com suas palavras. Não queria mais que aquilo.
   Uma noite, porém, Betty, a Feia, revelou-se. Retocou a sombra e os cílios, soltou os cabelos e empinou levemente o nariz. Absolutamente linda, surgiu em qualquer festa na qual eu também estava, pisando sobre um salto dez centímetros e acima até da própria confiança.
   Quando a vi, não acreditei. Antes do “oi”, esfreguei os olhos para enxergar de novo. Foi uma das primeiras vezes em que parei para me questionar até que ponto o etanol estava influenciando na visão. E não era o caso.
Um pouco de produção é capaz de fazer milagres em corpos femininos. E no caso de Betty foi só um pouco mesmo. Fiquei brabo comigo por conviver com ela diariamente e não ter notado aquela beleza.
   Imberbe, cumprimentei-a admirado. Satisfeita, aposto que pensou “viu, só?”.
   Tentei colorir nossa amizade nessa ocasião. Lembrei do nosso bom relacionamento e devo ter citado mais uma ou outra palavra com a inspiração do álcool. Bulhufas! Ouvi um dos nãos mais convincentes que já me foram dados. Resignado, nada me restou a mais do ser aceitar a derrota. Vitoriosa, Betty, a Feia, continuou exibindo seu sorriso colgate.
   Depois do amanhecer, contei os minutos até a segunda-feira. Quando ela chegou, ansiei pelo recreio, quando enfim pude vê-la novamente. Esperava-a linda. Mas não. Recolocou os óculos de grau e prendeu os cabelos. Disfarçou-se no lugar-comum do dia-a-dia. Sua beleza, no fim, preferiu guardar em segredo. Idiotas como eu, afinal, eram perfeitamente dispensáveis.
   Desde então jurei nunca mais duvidar de uma mulher.

Rápidas uruguaias, parte 4

Baar Fun Fun Tangueria
   Caldas Júnior fundou o Correio do Povo em Porto Alegre em 1895. No mesmo ano, alguns graus de latitude mais ao Sul, era aberto, por Don Augusto López, o Baar Fun Fun Tangueria, a uma quadra do Teatro Solis – outra obrigação de quem vai a Montevidéu.
   Passados 115 anos, o lugar é uma das referências da noite da capital uruguaia. Não para sair pegando todo mundo, mas sim um digno (e verdadeiro) boteco de época. Ideal para confraternizações entre amigos dispostos a dar algumas risadas pós-expediente de trabalho.
   Claro, entrar no Fun Fun é como viajar no tempo. Telefones do século passado (de repente até retrasado), garrafas de diversas bebidas datando de décadas atrás e por aí vai constituem a decoração. Há também uma fotografia de Carlos Gardel, autografada pelo próprio. Como o ídolo do tango morreu em 1935, dá para se ter noção de como as coisas lá são antigas.
   A música predominante, como o próprio nome sugere, é o tango, que lá é tocado ao vivo. Ainda assim, nada que um bilhetinho não resolva. Só não se espante se acontecer de tu, caro(a) leitor, solicitar música brasileira, talvez esperando um clássico da MPB, e começar a ouvir “Você é luz, é raio, estrela e luar”. Acontece, sou testemunha.

Uvita
   O que Carlos Gardel, Danny Gloover, Michele Brachelet e eu têm em comum? Todos nós já tomamos uvita, a bebida levemente alcoólica vendida somente no Fun fun. A base de vinho, sua história lembra a coca-cola, pois sua fórmula é mantida em segredo.
   Apenas – aconselho – não beba ela num só gole – mesmo que ela seja servida em copos de cachaça. Isso assusta os gringos e, certamente, fazem eles pensar que você é um bêbado brasileiro.
   Ah, como eu sei que o Gardel, o ator americano e a presidente chilena gostam de Uvita? Fotos! Pelas paredes do Funfun, além da decoração antiga, há fotografias de (várias) personalidades no bar, além de reportagens sobre o bar.

La murga de los periodistas fuleros
   Quem me acompanhou na viagem para cobrir o carnaval em Montevidéu foi um monte de jornalistas, de Argentina, Chile e Brasil. Como não poderia deixar de ser, o ponto de encontro extra-oficial do grupo acabou sendo o Fun Fun, onde foi fundada La Murga de Los Periodistas Fuleros, provando que jornalista é boêmio igual em tudo o que é lugar. Não sabe o que é murga? Continua acompanhando o blog que logo, logo descobrirás.

Medio-medio
   Mas… continuando a saga para quem gosta de bebidas locais, outra de Montevidéu é o medio-medio: servido na mesma taça meio champanhe e meio vinho branco. É encontrada em dois lugares: no Mercado Del Puerto e no restaurante El Milongón.