Eu entendia muito menos do que julgo que sei hoje sobre o mundo quando tinha seis anos, três meses e alguns dias de vida. A bem da verdade, mal compreendia o que acontecia ao meu redor naquele início de década de 90.
Numa paleozoica era em que termos como “Facebook”, “Twitter” e “Google” não remeteriam a nada demais. O maior desafio que tinha era juntar letras, sílabas e hiatos da forma correta, assim como aprender que 2 + 2 são 4. Eu tinha que passar de ano. Era o que importava.
Meu desafio soava bem mais simples do que o país em que morava tinha. Não chego a recordar com uma precisão exata, mas lembro que vivíamos ameaçados por um tal de dragão da inflação, que toda hora era retratado nas revistas que meu pai assinava.
Nesse planeta todos pareciam ser mais ricos e bem-de-vida que a gente. Nesses tempos pré-plano Real, o Brasil realmente era não mais que o país do terceiro mundo que tinha carnaval. E bundas.
(flash back gigante de todos os avanços e tropeços do Brasil entre 1992 e 2012)
Talvez hoje eu entenda um pouco mais do mundo do que duas décadas atrás. Vi, vivi e senti muitas coisas nesse meio tempo. Tropeços e evoluções, crises e soluções, trabalhos e políticas. O saldo, contudo, foi positivo por certo. Outrora coadjuvante, o Brasil passou a ser um país grande – não apenas geograficamente – em campos mais importantes que os de futebol.
Entre erros e acertos hoje reparo que o tal dragão da inflação (as charges não se esqueceram dele) mudou de casa. Enquanto dorme por aqui, assombra lares outrora tão protegidos, fazendo – do pior modo – ex-almofadinhas aprenderem a dizer que “isn’t easy for nobody”.
Não que eu esteja feliz com isso. Só essa crise me chama atenção pela curiosidade que ela me desperta. Hoje meu sobrinho tem seis anos, três meses e alguns dias. Ele quer aprender a escrever e não dá muita bola para essas coisas que passam na TV ou saem nos jornais, no caso dele, a internet.
Fico curioso para saber qual lembrança ele guardará e se é que ele vai saber que um dia foram os espanhóis que barravam brasileiros em seus aeroportos – e não ao contrário.
De certa forma anseio para ter uma conversa com ele daqui a uns anos para perguntá-lo sobre suas primeiras lembranças de Brasil. Um país pujante – se ainda for um – ou um lugar (ainda) cheio de diferenças sociais.
Quero que ele se lembre de muita coisa para debatermos futuramente. Só não precisa se lembrar que sertanejo universitário era moda quando ele tinha seis anos, três meses e alguns dias.
